O termo que vem à baila lembra "Fomo" (sigla em inglês para o "medo de estar perdendo alguma coisa"), síndrome do mundo moderno antes da pandemia, em que todos estavam lindos e felizes em fotos fartamente distribuídas nas redes sociais. Agora, outra sigla ganha espaço por detectar um comportamento. Chama-se "Fopo" ("fear of other people's opinion" ou medo das opiniões alheias). Foi cunhado pelo psicólogo americano Michael Gervais e se refere a um receio que pode virar uma "obsessão irracional".
O sintoma agora se expande, contagia as redes sociais e o postar ou não postar vira uma das principais questões contemporâneas. E não é para menos: estamos vivendo uma era, potencializada pela pandemia, em que atitudes individuais podem ganhar imensa (e negativa) repercussão. O pavor de ser "cancelado" acaba comprometendo o discernimento e até o "correto", sob a lente do medo, corre o risco de parecer equivocado.
O consultor de moda e escritor André Carvalhal vem questionando o assunto. "Vale se perguntar se a pessoa que deixa de fazer uma determinada publicação online, por não ter segurança ou para ser socialmente aceita, está, de fato, repensando suas ações no mundo real", explica. "Por exemplo, tem um monte de gente indo a festas durante a pandemia. Elas não postam o que estão vivendo, como fariam em outros períodos, mas seguem na aglomeração, sem questionamento algum."
Segundo o consultor, o "Fopo" é resultado de tudo que a web intensificou. "Até pouco tempo, o 'cancelamento' vinha da imprensa, dos chamados formadores de opinião, que faziam a curadoria do que era ou não válido. Hoje, a pirâmide se inverteu", observa. "E aí entra o medo da opinião dos outros e o consequente receio de expressar a sua, já que todos podem fazer julgamentos a respeito", continua. Para ele, a novíssima geração já emergiu sob esses novos códigos, e está mais preparada do que os "millennials antigos".
De acordo com o psicanalista e professor da Universidade de São Paulo (USP) Christian Dunker, a reflexão a respeito das publicações na Internet está em curso e é mais do que bem-vinda. "O indivíduo pensar antes de postar e investigar o significado do post para si e para os outros é sinal de que está desenvolvendo consciência crítica", acredita.
Com 98 mil seguidores no Instagram no perfil @mequetrefismos, a influenciadora Luiza Brasil acredita que a pandemia da Covid-19 deixou as desigualdades sociais ainda mais latentes e transformou o sentido do verbo postar. Ela diz estar tendo ainda mais cuidado neste momento. "Por estarmos todos em casa, surgiu o questionamento do quanto da minha intimidade devo revelar. Percebi que também posso silenciar", afirma.
"Tudo isso está provocando uma mudança de mentalidade. Muitas vezes, eu me pergunto: 'Preciso mesmo postar isso?'", avalia. Antes da pandemia, existia a vangloriação do lifestyle. "Hoje o que conta é como você está conduzindo a sua vivência, ser mais educativa e empática", emenda a influenciadora.
Luiza acredita que esta reflexão deveria avançar. "O tribunal vazio da Internet faz com que as pessoas sintam medo, mas, na maioria das vezes, não altera a conduta nem o caráter do indivíduo. O papo deveria ser outro. São poucos os que investigam a origem do real problema simbolizado no receio de ser 'cancelado'."
Carvalhal - que vai lançar o livro "Como salvar o futuro" - diz que o processo de postar ou não postar deveria ser utilizado para autoconhecimento. "Procuro pensar no que a dúvida diz sobre mim, e não sobre os possíveis comentários negativos."