Entrevista da semana

Do coração para a pele

Cinthia Milanez
| Tempo de leitura: 4 min

As várias tatuagens espalhadas pelo corpo já sinalizam a paixão de Ewer Sumati, de 44 anos, pelo seu ofício. Natural de São Paulo, "o artista, designer gráfico e, por último, tatuador", como ele próprio se define, começou a sua carreira em Bauru, onde se consagrou na modalidade trash polka, que mistura a abstração com a realidade.

Filho do securitário aposentado Ilson Santos, de 68, e da dona de casa Elisabete Santos, de 70, Sumati tem dois irmãos: o dentista Richard Santos, de 46, e o advogado Henrique Santos, de 37.

Pai da estudante Mádhavi Campregher, de 21, ele é casado com a cabeleireira Juliana Cremonez, de 42. Ambas, inclusive, carregam alguns dos mais de 3 mil traços já idealizados pelo artista.

A seguir, Sumati narra os detalhes da sua vida pessoal e profissional, que também se encontra resumida em sua pele. Confira:

Jornal da Cidade - Como chegou a Bauru?

Ewer Sumati - A minha família vivia em Santo André, mas eu nasci em uma maternidade em São Paulo. Dos 4 aos 12 anos, morei em Goiânia por causa do trabalho do meu pai. Depois, nós nos mudamos para Salvador, onde vivemos até os meus 16. De lá, a minha mãe quis ficar perto dos seus parentes, em Ribeirão Preto. Aos 19, passei no antigo curso de Desenho Industrial, hoje Design Gráfico, da Unesp, em Bauru.

JC - A arte te acompanha desde a infância?

Sumati - Eu desenho desde os 4 anos. Aos 12, fiz um curso de pintura a óleo em Salvador. Inclusive, cheguei a expor alguns dos meus trabalhos no Templo Bar e no extinto Bar Imprensa depois que me mudei para Bauru.

JC - E a tatuagem? Desde quando você se identifica com este tipo de arte?

Sumati - A tatuagem entrou na minha vida ainda na infância. Aos 8 anos, o meu tio Edilson, irmão do meu pai, era punk e tatuava os amigos dele no quintal da casa da minha avó. Eu achava aquilo o máximo. Em 1995, já na faculdade, aprendi o ofício com o tatuador Rui Moura, hoje aposentado, em Ribeirão Preto. Inclusive, ele fez a minha primeira tattoo, um dragão no braço. Na época, nós treinávamos em couro de porco.

JC - A partir de quando você começou, de fato, a trabalhar com tatuagem?

Sumati - Em 1997, eu trabalhava no estúdio do Thiago Rodrigues, um dos pioneiros da cidade neste segmento. Depois, quis um espaço próprio e adaptei o banheiro da república onde morava. Acho que, naquela época, tatuei metade da Unesp.

JC - Você abordou o assunto, inclusive, em seu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso), correto?

Sumati - O meu TCC contou a história da tatuagem. Depois, o trabalho virou um livro intitulado "Design na Pele". Nele, eu defendi que o corpo não foi feito para receber um desenho qualquer. Ele funciona como um suporte para a arte.

JC - Quais são as suas referências artísticas?

Sumati - Eu me inspiro muito no surrealismo do Salvador Dalí e no realismo do Leonardo Da Vinci. Inclusive, misturo a abstração com a perfeição nas tatuagens que faço. Por isso, me encaixo em uma modalidade chamada trash polka, criada pelo casal de alemães Volker Merschky e Simone Pffaf na década de 90.

JC - Você já trabalhou em outras áreas?

Sumati - Eu trabalhei como designer gráfico em três agências publicitárias da cidade e exerci a função de diretor de Criação da Plasútil por nove anos. Paralelamente, tatuava na minha casa e no estúdio do Thiago Rodrigues. Em 2009, deixei o meu emprego na indústria para montar o estúdio, na quadra 21 da rua Aviador Gomes Ribeiro, onde estou até hoje. Embora ganhasse muito bem no meu antigo trabalho, sou apaixonado pela arte e, atualmente, não me vejo atuando em outra área.

JC - Sempre criou as tatuagens que fez?

Sumati - Nos anos 90, eu trabalhava com pastas de desenhos feitos por mim e outros artistas. Com o Google e Pinterest, já vi gente copiando a foto da tattoo da pessoa em sua pele. Nunca concordei com isso e resolvi me dedicar à tatuagem autoral. Costumo dizer que sou artista, designer e, por último, tatuador.

JC - Como você consegue conciliar a criação com a prática propriamente dita?

Sumati - Eu faço três tatuagens por semana, sempre às terças, às quintas e aos sábados. Uso os demais dias para criar os desenhos. Por isso, as pessoas que me procuram querem arte.

JC - Você cria em todas as plataformas?

Sumati - No computador, tablet e papel. Inclusive, eu sou patrocinado pela Derwent, uma marca inglesa de materiais de arte representada, no Brasil, pela Tilibra. Já cheguei a aplicar, ainda, uma modalidade intitulada free hand, na qual os tatuadores desenham direto na pele dos seus clientes.

JC - A sua esposa curte tatuagem?

Sumati - Demais. Tanto que nós nos conhecemos no meu estúdio. Ela pediu um orçamento e a sua beleza me encantou. O tempo passou e nos reencontramos em um barzinho. Estamos juntos desde 2013.

JC - Tem alguma história emocionante?

Sumati - Sim, e foi há pouco tempo. O pai de um amigo era caminhoneiro e faleceu, assim como a irmã, que curtia escrever. Logo, eu criei um desenho ao estilo trash polka e nós dois choramos depois que vimos o resultado em sua pele.

JC - A tatuagem, então, é muito mais do que uma mera manifestação cultural...

Sumati - Sim. A tatuagem envolve o nosso sentimento pela espiritualidade, por alguém da família etc.

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