Cultura

Para ler, rabiscar e se envolver

Júlia Corrêa
| Tempo de leitura: 3 min

Caetano Veloso já definiu os livros como objetos transcendentes e, ao mesmo tempo, dignos de nosso "amor táctil". Claro, há quem prefira mantê-los intactos. Por outro lado, tem quem sugira que um verdadeiro leitor é aquele que deixa suas marcas ao longo das páginas. 

Para o artista visual Wolney Fernandes, essa relação vem se modificando. "Eu tinha um cuidado muito grande em preservar os livros, achava que tinham um caráter sagrado, mas, ultimamente, tenho sentido uma vontade maior de escrever, rabiscar e fazer uma espécie de troca: o livro me marca, e eu quero deixar uma marca nele também", explica.

O trabalho do artista visual Wolney Fernandes sempre esteve ligado à literatura. As narrativas lhe servem de inspiração para a concepção das obras - uma vez que, antes de iniciar uma criação, ele se pergunta que história quer contar. "É como se eu ampliasse a minha experiência", revela. Assim, foi natural que, ao flexibilizar a sua relação com o objeto livro, isso tenha se refletido em sua produção.

Em seu Instagram (@wolneyfernandes), Wolney passou a compartilhar uma série de colagens criadas a partir do impacto que certas leituras têm sobre ele. "São montagens mais efêmeras, em que busco criar uma narrativa em torno do livro para mostrar a minha relação com ele." É sobretudo em revistas antigas e objetos cotidianos que Wolney busca o material para compor as suas colagens. 

A consciência dessa relação íntima com cada obra acabou despertando em Wolney outra vontade: a de customizar capas de livros. Em uma série de stories no Instagram, o artista mostra como modificou, por exemplo, uma edição de Madame Bovary, clássico de Gustave Flaubert, cuja imagem escolhida para a capa - uma pintura de Picasso - não dialogava com aquilo que o romance lhe transmitia.

"Me incomodava ver uma imagem vinculada a um tempo que não era o tempo do livro em si; a partir disso fui atrás de novas imagens", explica. "Considero duas vias: uma simbólica, daquilo que leio, e outra formal, que influencia diretamente o meu olhar. Tem a ver com o significado, mas também com a experiência estética."

Antiguidades

Movida pela vontade de compartilhar "a história do livro e da vida que o livro teve", a cantora e compositora Carol Naine mantém o Instagram "Quem Sabe Sebo" como hobby - a ideia original era postar apenas textos despretensiosos, como um exercício de escrita sobre as obras encontradas e lidas por ela. "Na hora que vou comprar um livro, fico buscando qualquer marca para descobrir uma história", explica ela, que diz garimpar obras em sebos do centro de São Paulo. "Acho mais bonito um livro amarelado, que tenha algo sublinhado, uma página dobrada". Não por acaso, em uma postagem, ela brinca que um livro de Marguerite Duras "deixou a desejar no quesito decadência".

Se, antes, Carol era adepta da ideia de "pecado" envolvendo a marcação de livros, ela conta que começou a sentir essa necessidade quando passou a buscar, nas obras, inspiração para compor. Assim, uma de suas manias quando encontra um livro é conferir se os grifos do antigo dono coincidem com os seus. "Fico imaginando por que a pessoa sublinhou coisas que me parecem banais e não-sublinháveis".

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