Atitude

Minha casa, minha vida

Márcia Distzer
| Tempo de leitura: 2 min

O contexto pandêmico provocado pelo coronavírus, que colocou o mundo aos pés de um inimigo invisível, e a incerteza a respeito do futuro vêm trazendo à tona ansiedades, angústias, medos e fobias. Há quem prefira se manter isolado, independentemente das medidas de flexibilização. Recentemente, Reynaldo Gianecchini disse numa live com a empresária Naná Karabachian estar há seis meses dentro de casa. "Quero sair quando puder fazer as coisas com alegria, abraçar. Sou meio radical", explicou o ator.

O longo período de isolamento social, por sua vez, desencadeia sintomas, como os da Síndrome da Cabana. "O termo foi criado por volta de 1900, quando trabalhadores do Norte dos EUA ficavam protegidos do frio, em cabanas, durante os meses de inverno", conta a psicóloga e neuropsicóloga Lucia Moyses. "Ao sair, eles tinham dificuldade de regressar ao mundo, passavam a achar que só lá dentro estavam realmente seguros."

Lucia destaca que a síndrome não é considerada um transtorno, mas suas consequências, depressão e ansiedade entre elas, devem ser tratadas. Assim como Gianecchini, a tradutora Cláudia Mello Belhassof, de 55 anos, está há meio ano sem sair do apartamento por causa da Covid-19. "No meu aniversário, em junho, desci até a portaria do prédio para receber um presente e as minhas pernas tremiam de ansiedade e nervoso", conta ela, que mora com o marido, a mãe idosa e o irmão autista, o que a faz tomar cuidados em dobro. 

Segundo a psicanalista Sandra Niskier Flanzer, casos de fobia, insônia e até distúrbios alimentares vêm aumentando por causa da pandemia. "No medo, há um objeto evidenciado; a angústia não tem objeto, é um sentimento sem palavras", explica. "A Covid-19 coloca o sujeito em casa, diante de suas maiores angústias, e, ao mesmo tempo, fora dela, tendo que viver com restrições. Ir para a rua melhora por um lado e não sair, por outro", analisa. A psicanalista ressalta a gravidade e o ineditismo da situação. "Estamos vivendo um filme que mistura terror com ficção científica. Mesmo assim, não podemos ser negacionistas nem radicais." Para ela, fundamental é ficar atento à "régua". "Quando deixa de ser tristeza e vira depressão? Geralmente, quando os laços afetivos e profissionais começam a esgarçar", pondera.

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