Articulistas

Tendências suicidas

Maria da Glória De Rosa
| Tempo de leitura: 3 min

Dentre a maioria dos assuntos controversos que aflige a Psicanálise, e exige uma explicação plausível, está o suicídio. É um dos mais complicados problemas com que os estudiosos têm de lidar. Ninguém poderá pretender entendê-lo enquanto não acatar a complexidade da psicologia humana e enquanto insistir numa fórmula corriqueira para explicá-la.

Algumas teorias mais antigas colocam o sofrimento como problema central do suicídio. Foi assim que Alfred Adler encarou o sofrimento: um meio para despertar atenção, evitar responsabilidades e conseguir duvidosa superioridade. Theodore Reik argumenta que aparentar sofrimento é um meio de conseguir amor e de expressar vingança. Já Franz Alexander fala na função do sofrimento como um meio de remover sentimentos de culpa. Nesse breve resumo, dá para enxergar observações válidas, mas terão de ser aprofundadas, caso contrário, darão a ideia de uma indesejável aproximação da crença popular de que a pessoa auto anuladora quer só sofrer e que só é feliz quando infeliz.

Nossa intenção não é solucionar o que até hoje não encontrou uma vertente conciliadora, mas tão-somente estampar posições em estudo. Ocorreu-nos, então, apresentar uma investigação pouco conhecida, e também sujeita a interpretações, de um filósofo quase inexplorado em terras tupiniquins. Estamos nos referindo ao coreano Byung-Chul Han, autor de várias obras publicadas pela Editora Vozes, entre as quais Sociedade do cansaço, que usaremos para consulta neste artigo, Agonia do Eros, Topologia da violência, O que é poder? e outras.

Não possuímos dados para assegurar se hoje a sociedade está mais contaminada pela depressão do que em épocas pretéritas. Byung-Chul Han usa recorrentemente a expressão "sujeito de desempenho" para referir-se ao homem moderno, parte de uma sociedade coercitiva onde tem de reagir com hiperatividade e na qual é, ao mesmo tempo, prisioneiro e vigia, vítima e agressor. Por consequência, o homem moderno acaba sofrendo de depressão, desenvolvendo sintomas parecidos aos que os muçulmanos apresentavam nos campos de concentração da II Guerra Mundial, que em função de sua debilidade assemelhavam-se a "esqueletos humanos". Não podemos isentar-nos da suspeita de que o homem moderno, com seus transtornos neuronais, seria um muçulmano, com a diferença de estar bem nutrido e, às vezes, até obeso.

E, assim, Byung-Chul Han prossegue os estudos sobre o sujeito de desempenho, batendo na tônica da sociedade de exploração em que vivemos. E, como ele mesmo diz, o sujeito de desempenho explora a si mesmo, até se consumir completamente. Neste ponto, o autor está se referindo à Síndrome de Burnout (burn=queima, out=exterior) que consiste em sinais de estresse, exaustão, negatividade, causados pelo excesso de trabalho. O indivíduo acaba por explorar, agredir-se a si mesmo, até chegar ao extremo... Essas reações, não raro, se agudizam até desembocar no suicídio. Daí, o trocadilho: o projeto do homem de desempenho mostra-se como um projetil direcionado contra si mesmo.

Será que vale a pena viver assim? Num mundo de sofrimento, cobrança, depressão, suicídio? Segundo o coreano no qual nos baseamos, este universo não é mais apropriado para morar.

Perdemos a relação com o divino, com o sagrado, com o mistério, com o infinito. Perdemos a capacidade de admiração! O tempora! O mores!

A autora é pedagoga, jornalista, advogada, professora doutora aposentada Unesp.

 

Comentários

Comentários