Definir o amor, jamais o faria, que não sou besta, nem poeta que se atreva a tanto. Aliás, é perda de tempo conceituar o inconceituável. Por isso, Camões, sabendo quão ilógico é o amor, foi logo versejando ser ele coisa absurda, sem pé nem cabeça, talvez só desvairado coração: "Amor é fogo que arde sem se ver". Como assim, será que entendi? Então o indivíduo está em chamas e não se percebe queimando? Exatamente isso. O fogo do amor é tão louco e queima tão gostoso que o apaixonado pede, em vez de água, gasolina para ainda mais se queimar. E o soneto continua: quem ama vive um "contentamento descontente" e "uma dor que desatina sem doer". Complicou outra vez. Tentemos, novamente, desembaraçar o ilógico novelo. Que o amor dói, não há dúvida, o poema diz que o amante chega a enlouquecer. Mas é uma dor tão gostosa, que não chega a doer. Pode? De resto, a inevitável conclusão: pobre de quem ama! Está em chamas, sofrendo a dor da ferida aberta, sendo prisioneiro pelo próprio querer, e, pior, sendo leal com quem o mata. Apesar de tanta desgraça, ainda assim ostenta a cara idiota dos apaixonados, que riem de tudo, sem saber por quê.
O povo, dizem ser a voz de Deus, também quis cunhar imagens explicando o amor. Daí, a teoria das duas metades que se completam. Coisa besta, me perdoem. Então, a gente não nasce inteiro? E a tia e o tio solteirões viverão sempre pela metade? E quando a gente se casa com a metade errada, que é a metade do outro? Devolve? E não é que essa besteira de ser metade, ganhou versão mais ridícula ainda: a "tampa da panela". Fico imaginando uma multidão de panelas todas abertas em marcha pelas ruas, não para protestar contra o Bolsonaro, mas para encontrar quem possa tampá-las. Mais sentido faria se fosse para destampá-las. Lembrei-me de coisa ainda pior: "panela velha é que faz comida boa". Credo. E o que dizer da frase manjada: "Você é o ar que eu respiro". Nesse caso, a pessoa amada é o ar respirado. Mas justamente o ar, ao qual não damos valor nenhum. Aliás, nele nem pensamos, já que respiramos mecanicamente. Só damos conta do ar, quando alguma coisa fede ou quando ele nos falta, é o caso de asfixia. Alguém, ostentando sabedoria, disse que se gostamos de alguém pela beleza, isso não é amor, mas desejo; se a queremos em razão da inteligência, também não é amor, apenas admiração; se o motivo é a riqueza, claro está não há amor, somente interesse. Agora, se não sabemos o porquê de querermos aquela pessoa, isso sim é amor. Confesso que não me animei com o retrato da pessoa amada. Precisava ser feia, burra e pobre!
Sendo o amor fogo que queima e não dói, tampa de panela, ar que se respira ou metade de qualquer coisa, a verdade é que suas águas sempre correm para encontrar o padre. Então, coçou-me o interesse pela origem da palavra "conjugal". Vamos ao latim: Con jugum. Interessante saber que "jugo" significa "canga", aquela peça de madeira colocada sobre o pescoço dos bois para que puxem a carroça na mesma direção. Faz sentido, o marido não pode ir para um lado e a mulher para outro, isso sempre deu bode. Encangados (nossa!) devem seguir lado a lado. Também não gostei dessa ideia de puxar fardo pesado, sem poder decidir. Lembrei-me então de outro símbolo conjugal, as alianças, elos de uma corrente. Outra vez, a ideia chata de amarrar e prender. Achava eu tão bonita a expressão "vida conjugal" e vem a etimologia me dizer que casamento é parceria de bois ou de burros para carroça pesada puxar.
Melhor fez o Vinícius, que apenas constatou ser o amor, como tudo na vida, chama passageira. Tudo que vive está queimando, deixando de ser. Daí, convidar-nos para amar infinitamente, enquanto amor houver, enquanto o fogo durar.
O autor é escritor de obras didáticas e ficcionais