Tribuna do Leitor

Opressores e oprimidos

João Pedro da Costa
| Tempo de leitura: 3 min

Quando eu estudei na sétima série, assim como em qualquer escola, na minha turma tinha um valentão. Um rapaz bronco, repetente, metido a desafiador, entre outros defeitos. A escola de classe média-alta a qual tinha acesso facilitou a entrada de alunos de baixa renda como forma de incentivo a educação. Então, um garoto da minha idade, que estudou comigo no ensino primário, iniciou o que na época chamávamos de quinta série. Ele era meu amigo e eu me familiarizava muito com ele.

Certo dia, na escolinha de futebol, o valentão olhou para esse meu amigo após ele marcar um golaço, "Ei moleque. Fica esperto seu macaco!". Naquela época a gente ainda não falava de como o racismo era prejudicial, apesar de muita gente ter achado errada a atitude.

Este meu amigo, para se "vingar", venceu a partida, por 10x0, com direito a carretilha e chapéu no Valentão. Foi coisa de dois dias. A aula havia sido na quarta-feira. Na sexta, quando o sinal tocou, enquanto esperávamos o ônibus escolar na esquina de cima, meu amigo, na esquina de baixo, tinha o supercílio aberto por um soco inglês que o Valentão levou consigo naquele dia.

O sistema é feito para por cada um no seu devido lugar. Talvez uma lição dura que aprendi muito cedo e relembrei esta quinzena quando lia Veblen e sua teoria sobre a classe do lazer, bem como Bourdieu com a teoria do capital cultural. Para esses autores, principalmente Bourdieu, a escola replica a violência da desigualdade social do mundo para os alunos vivenciarem a dinâmica dos opressores e oprimidos.

Eu lembro que na escola, todo mundo era "mais legal" se comprasse lanche na cantina. Eu levava de casa, pois era o que nós podíamos na época. Já dá pra notar que os convites para festinhas de aniversário só não deixavam de chegar para não ficar muito chato em deixar um só de fora. Aqui retomo Bourdieu que dizia que o capital cultural define a classe social, a partir da ótica do símbolo aquisitivo que o faz capaz de consumir e o significado que ele provoca nos outros. Assim, quem podia comprar um salgado com coca e ostentar simbolicamente era bem mais valorizado que aquele que levava comida de casa.

Na vida é assim. As pessoas de classes mais abastadas não possuem carros esportivos por serem necessários, mas por reservarem uma exclusividade que os fazem destoar do comum. A classe média não possui bens, mas por sua vez detém o conhecimento, e acredita em prêmios que podem ser alcançados mediante a meritocracia. A classe baixa, bem... eles sequer têm bens tampouco conhecimento. Estão aquém da sociedade, separados e marginalizados, no entanto fazem dos meritocratas que "chegaram lá" seus ídolos. Afinal quem ai não queria ser o Neymar, a Anitta, ou "Mc" tanto faz?

Uma coisa todos tem em comum: buscam destoar, buscam deixar uma marca que não os desloque da noção de igualdade com os demais. Queremos estar acima do que a Constituição prescreve. Palhaçada de isonomia!

Na semana retrasada o Magazine Luiza anunciou o seu programa de trainee 2021 que irá contratar apenas pessoas negras. A polêmica foi tanta que até as palavras "racismo reverso" foram, mais uma vez, demonstração de ignorância e prova de racismo estrutural no Brasil. A ação é parte de um programa de equilíbrio e oportunidade em combate ao desemprego brasileiro que, segundo dados atuais, sete a cada dez pessoas desempregadas, são negras. A única coisa que espero é que no fim da primeira semana de trabalho não tenha um valentão os esperando com um soco inglês.

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