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Minha alma cigana

Henrique Matthiesen
| Tempo de leitura: 2 min

Dentre as ponderações nas quais Darcy Ribeiro refletia, gosto muita dessa: "Presente, passado e futuro? Tolice. Não existem. A vida é uma ponte interminável. Vai se construindo e destruindo. O que vai ficando para trás com o passado é a morte. O que está vivo vai adiante." Nesta reflexão Darcy nos traz a percepção de caminhada, de movimento, de construção. Evidente que a singularidade de sua personalidade, como um ser utópico na sua inteireza, jamais poderia ser inerte, imobilizador. Característica intrínseca dos sábios que ousaram e desafiaram a mediocridade como Darcy Ribeiro, Paulo Freire e Anísio Teixeira eram suas inquietudes que os faziam caminhar, que os faziam ousar, que os faziam nômades da existência, como almas ciganas.

Latino-americanos e brasileiros por excelência, seus ensinamentos jamais se restringiram às fronteiras pátrias ou se serviram da mesmice, como gênios da obviedade. Tornaram-se universais, cidadãos do mundo, seres a frente de seus tempos. Aliás, a humanidade não seria nômade por essência? Não seriamos todos ciganos? Se compreendermos os processos civilizatórios, ou se conjecturarmos que a existência humana é apenas, segundo a biologia também um processo construtivo, concluiremos que sempre estaremos em construção, ou seja, em movimento, caminhando. Para os que optarem por sonhos, por utopias, por transformações, incorporarão de forma categórica o espírito cigano, pois inevitavelmente, as utopias e os sonhos são nômades por essência.

Nada mais itinerante do que a utopia; ela em si não se acomoda, não se conforma, não se imobiliza e tem a sua essencialidade no movimento, na transformação, no rompimento de fronteiras. A utopia por si só é cigana. Itinerante do mesmo modo é a própria existência, porquanto, o "homem" é um ser finito e está somente de passagem. Entretanto, muitos optam pela involução, pelo parasitismo e pela imobilidade. Não ousam, não sonham, não caminham; estão mortos antes mesmo do esgotamento biológico, ou do extermínio existencial, e assim tornam-se seres antiutopia. Renunciam a caminhada, a descoberta, a grande e fascinante caminhada das causas, do sentido, do sublime.

Indignos da existência, despossuídos de alma, prisioneiros da mesmice, não saboreiam os aromas, as paisagens, e as maravilhas que as caminhadas podem proporcionar. Afinal, alma cigana é uma escolha, uma opção, não um destino, mas um sentido para os que ousam a grandeza da existência.

O autor é bacharel em Direito, pós-graduado em Sociologia.

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