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Um culto à saudade

Matheus Terra
| Tempo de leitura: 2 min

Na noite de ontem tive um sonho tão agradável e lúcido que preferia não ter acordado. Tratava-se de um abraço à minha finada avó e uma breve prosa entre ela e eu, seu neto. Após a difícil despedida acordei, é claro, em prantos. A lucidez deu lugar a uma saudade imensa que não sentia desde muito tempo, e a vontade que tive de não ter acordado não se tratava de uma abdicação à vida, mas a esperança de tê-las em meus braços, senti-la ainda uma vez mais sem deixá-la escapar para o eterno sono na noite eterna que nos espera a todos.

Ainda acordado, a sensação de tê-la abraçado ainda era real e tão palpável que podia sentir o cheiro de seus cabelos em meu nariz numa breve tentativa de acreditar que ainda poderia revê-la. Não poderei mais, e é isto que torna a saudade um sentimento dilacerante. Mas, o que é a saudade? A esperança em tempos de pandemia tornou-se uma coisa tão realizável que ainda acreditamos, mesmo com as devidas proporções desastrosas que o ser humano cria no ambiente em que vive, que o mundo ainda tem salvação, que o impossível pode ser feito. A humanidade ainda, talvez, muito talvez, valha a pena. A saudade nada mais é a certeza absoluta e totalmente racional de que o passado valeu tanto a pena quanto o presente.

Ao abrir os olhos pela manhã, caiu-me como um raio sobre a mente, iluminando-a com uma estrondosa luz divina um poema chamado "Abdicação", de Fernando Pessoa, no qual um de seus versos diz: "[...] Minha cota de malha, tão inútil / Minhas esporas de um tinir tão fútil, / Deixei-as pela fria escadaria. / Despi a realeza, corpo e alma / E regressei à noite antiga e calma / Como a paisagem ao morrer do dia". O eu lírico do autor português incorporou-se ao meu e pude sentir na pele, no momento em que despertei, que despir-se de luxos desnecessários nada significa quando a vontade de regressar a noite, tão antiga e calma como a paisagem ao morrer do dia, torna-se uma necessidade de tamanha importância que o presente e futuro apequena-se diante da impiedosa saudade colossal do passado.

O sono é irmão da noite eterna, segundo um provérbio latino. Ao aceitarmos nosso inescapável futuro nos dedicamos, em vida, somente às coisas que realmente importam. O exercício de auto reflexão é algo que todo ser humano deveria experimentar: além de fazer com que cresçamos moralmente, também nos permite aproximarmos de quem nós realmente somos.

Em meu sonho aquele abraço foi tão fortemente aproveitado, que poderia muito bem estender-se por muitas e muitas horas sem que eu desse a mínima importância para o tempo que corre como correm as águas de um rio. Aquela saudade foi parcialmente sanada e aquele pequeno encontro foi longo, muito longo, deliciosamente longo.

O autor é pederneirense e estudante de Jornalismo na Unesp.

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