Em meio ao vaivém de carros e ao barulho do trânsito intenso da avenida Rodrigues Alves, em Bauru, dá para ter uma pequena noção do que é o campo. Na esquina da via com a Hélio Police, está o ambiente de trabalho do técnico agrícola da Secretaria Municipal de Agricultura e Abastecimento (Sagra) e futuro engenheiro agrônomo Mário Augusto Camargo, o Guto das Hortas, de 43 anos. Desde novembro de 2019, o profissional coordena o Centro Municipal de Estudos e Identificação de Plantas da Agricultura Urbana, o Projeto Cemeia, que promove a educação ambiental através da agricultura.
Primogênito do produtor rural Luiz Mario Fabro de Camargo e da dona de casa Helena Funchal de Camargo, ambos de 64 anos, Guto foi criado no sítio, especificamente, em um bairro chamado Lelei, igual ao seu irmão caçula, o representante comercial Luiz Fernando Camargo, de 36.
Pai dos estudantes Arthur Augusto da Silva Camargo, de 16, e Ana Alice da Silva Camargo, de 8, o técnico agrícola divide os desafios do Projeto Cemeia, bem como da vida, com a engenheira agrônoma Caroline Capossi, de 38.
Bom de prosa, Guto fala sobre a origem humilde, as conquistas e o que espera para o futuro. "Daqui para frente, só me resta cuidar da saúde e, claro, das plantas", adianta. Confira alguns trechos da entrevista:
Jornal da Cidade - Você nasceu em Bauru. Em qual bairro foi criado?
Guto das Hortas - Eu nasci no Hospital de Base, em Bauru, mas cresci em um bairro rural chamado Lelei, que fica a 20 quilômetros da cidade. De 1984 a 1994, estudei em Duartina, porque o deslocamento até lá era mais fácil.
JC - Por ter crescido no sítio, você começou a trabalhar muito cedo?
Guto - Eu não trabalhei para ter o que comer, porém, desde os 8 anos, fazia algumas atividades para abrir tempo ao meu pai, como manter o entorno da casa roçado, apartar os bezerros e levar as vacas para tirar leite na mangueira. Assim, conseguia conciliar as tarefas com os estudos.
JC - E você enfrentou alguma dificuldade nesta época?
Guto - Eu estudava à tarde, a partir das 12h30, mas o meu ônibus só passava às 12h20. Para não chegar atrasado à escola, pegava um coletivo às 10h e ficava aguardando as aulas começarem. Mesmo assim, nunca deixei de frequentar o colégio.
JC - O que você fez depois que terminou o Ensino Médio?
Guto - A minha família se mudou para Bauru e eu comecei a trabalhar como instrutor de autoescola. Dei aula por oito anos e só parei porque passei no concurso para motorista da coleta de lixo da Emdurb. Nesta época, trabalhava à noite e dormia apenas das 6h às 9h30 para pegar o ônibus rumo ao Colégio Agrícola, em Cabrália Paulista.
JC - Quando entrou na Sagra?
Guto - Em 2011, já formado, eu passei no concurso para técnico agrícola da prefeitura. A partir deste momento, comecei a mexer com hortas nas escolas municipais. O projeto tomou corpo e deu origem ao Programa Agricultura Urbana. Porém, nós implantávamos duas e fechávamos três, porque o pessoal não sabia cuidar. Diante disso, surgiu a ideia de criar o Projeto Cemeia. Após uma parceria da Sagra com as secretarias municipais de Educação e Administração, a iniciativa foi inaugurada em novembro de 2019. Até fevereiro deste ano, recebemos mais de 250 pessoas em nossa sede.
JC - Fale um pouco mais sobre o projeto?
Guto - Cada pessoa que entra traz uma dúvida sobre a agricultura urbana e, em cima disso, nós fornecemos orientações. Entre os principais temas, estão as hortas em meios alternativos, como os apartamentos. Temos, ainda, um jardim sensorial com mais de 70 espécies de plantas para aguçar os cinco sentidos humanos.
JC - Qual é a importância da iniciativa?
Guto - Nós trabalhamos com o resgate das plantas do passado quando estamos com os idosos, passamos informações básicas à molecada e conseguimos ajudar as pessoas a se alimentarem melhor.
JC - De que forma a pandemia mudou a sua rotina junto ao Cemeia?
Guto - Nós paramos de receber grupos de crianças, adultos e idosos, mas continuamos com os atendimentos individuais de segunda a sexta-feira, das 8h às 16h.
JC - É possível manter uma horta em qualquer ambiente urbano?
Guto - Com certeza, mas é necessário ter em mente que dá para buscar informações, mas não dedicação. As plantas requerem uma série de cuidados e as pessoas precisam estar dispostas a tanto.
JC - Você fez algum outro curso desde que entrou na Sagra?
Guto - Sim. Eu também sou técnico em química e estou prestes a me formar em Agronomia pela FIB. Consegui fazer a graduação graças a uma parceria da Sagra com a faculdade.
JC - A sua namorada trabalha com você no Cemeia. Vocês se conheceram através do projeto?
Guto - Não. Nós nos conhecemos em 2015, quando eu fiz uma horta na escola onde ela trabalhava como secretária. Depois, voltamos a nos encontrar na faculdade e começamos a namorar em 2017. Como ela é engenheira agrônoma e tem experiência com crianças, acabou realocada para o projeto.
JC - Quais são os seus hobbies?
Guto - Eu gosto de cuidar das minhas 120 orquídeas e pescar com a família.
JC - Por fim, como você se vê daqui a alguns anos?
Guto - Para quem morava no sítio e ia de carroça até o ponto de ônibus para pegar o transporte rumo à escola, tudo o que eu conquistei já está bom demais da conta. Daqui para frente, só me resta cuidar da saúde e, claro, das plantas.