"Estamos vendo rostos novos nos semáforos, nas esquinas e nos acolhimentos", comentam profissionais que acompanham o dia a dia de pessoas em situação de rua em Bauru. A percepção é de que aumentou os pedintes de esmolas. E, de fato, os números voltaram a crescer depois de um recuo registrado no início do ano. Em março, época pré-pandemia, haviam 140. Número abaixo dos 206 referente ao mesmo período de 2019. Entretanto, o fechamento de setembro aponta 213 nas ruas. Em março, 84 foram acolhidos e no mês passado o salto foi para 147. Os dados são da Secretaria do Bem-Estar Social (Sebes).
Uma destas pessoas, recentemente, se instalou com barraca em uma praça entre a rua Benjamim Constant e a Nações Unidas, no Centro, mas deixou o local na última quarta-feira por intervenção da Semma e Sebes. Em vulnerabilidade, eles ocupam ainda a Praça Rui Barbosa, Parque Vitória Régia, Praça Dom Pedro II, Praça Washington Luiz e viadutos do rio Bauru, na Nuno de Assis.
Não há um estudo específico sobre perfis porque, segundo a Sebes, o número de moradores de rua é inconstante. A pasta frisa que antes da pandemia havia 100 leitos para acolhimento e que após o advento da Covid-19 o número subiu para 165, em diversos locais, não tendo 100% de ocupação.
A assistência social do Albergue Noturno, ligado ao Centro Espírita Amor e Caridade (Ceac), acrescenta que o uso de drogas e o álcool tem sido a base da pirâmide dos problemas de quem busca ajuda. "A dependência química leva ao conflito familiar, que por sua vez resulta em quebra de confiança em casa e no trabalho, vindo o desemprego e a perda do ambiente familiar. Recentemente, temos registrado pessoas novas, de Bauru, que nunca tinham chegado a esta situação", cita Beatriz Borges.
O local é um dos pontos de acolhimento de Bauru, possui 53 leitos e oferece quatro refeições, banho, roupas e atendimentos de psicologia, serviço social e terapia ocupacional. A proposta do albergue é de fazer uso durante o dia todo, até que seja possível recolocá-los junto aos familiares.
"ME AJUDEM!"
Fernando Apolinário Ramos, 45 anos, antes do crack, nunca ficou um dia sem trabalhar com carteira assinada. A droga extraiu dele quase tudo, menos a vontade de lutar. "Vim de Ourinhos para Bauru em 2017, para trabalhar. Nunca tive nenhum problema, mas aí veio a droga e eu perdi tudo. Quando fiquei sem controle, procurei ajuda do Esquadrão da Vida. Fiquei 5 meses lá e agora estou aqui no albergue. E, ficando fora das ruas, não tive nenhuma recaída. Estou limpo há 7 meses. E eu procuro muito um emprego. Já trabalhei como motorista, operador de máquinas, tenho carta 'E', já fui pintor, construção civil e hoje peço que me ajudem a reconquistar a minha vida", revela.
Fernando acrescenta que hoje se sente forte e pronto para recomeçar. "Me arrependo dos meus erros a respeito da droga, do que eu perdi para o crack e só quero uma oportunidade!". Pessoas dispostas a ajudar Fernando a trabalhar e reconstruir sua vida podem procurá-lo no Albergue Noturno da rua Inconfidência, 7-18, Vila Vergueiro, ou pelo telefone 3222-4881.