As altas seguidas no preço dos principais ingredientes das pizzas têm preocupado os donos de pizzarias em Bauru. Eles relatam que, para manter a clientela, foi necessário abrir mão de parte do lucro e não repassar o aumento para as pizzas. Para se ter uma ideia, a muçarela, que antes era comprada por R$ 20 o quilo, agora custa R$ 35 o quilo, em média -- o que representa um aumento de 75%.
Em São Paulo, de janeiro a setembro deste ano, todos os alimentos e bebidas inflacionaram, em média, 6,82%. Já os derivados do leite e a farinha de trigo encareceram 18,93% e 11,26%, respectivamente, no mesmo período. Os dados são do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), medido pelo IBGE.
Quem percebeu essa variação foi Carla Garcia Pinheiro, proprietária há 8 anos de uma pizzaria no Jardim Terra Branca. Ela diz que compra cerca de 120 quilos de muçarela por mês e, para não repassar o aumento aos clientes, foi necessário reduzir custos. "Tive que adotar um rodízio de funcionários. Expliquei para eles a situação, que entenderam bem. Assim, consegui manter a qualidade dos ingredientes e não entrar no vermelho. Optei por deixar de lucrar, sabendo que é uma fase difícil que estamos passando", explica.
Já para a sócio-proprietária de uma pizzaria do Jardim América, Fernanda de Lemes, o lucro com as vendas caiu cerca de 30%. "Não conseguimos repassar esse custo aos clientes. Temos medo de aumentar e as pessoas pararem de comprar. O movimento já está baixo. Estamos tentando manter os valores, mas está difícil", pondera.
Por outro lado, uma distribuidora de alimentos passou a explorar o pagamento à vista ou antecipado para conseguir preços melhores. "No começo, as vendas ficaram travadas. Depois, os clientes voltaram a comprar, só que reclamando muito", conta Sérgio Grimaldi, gerente há 7 anos da empresa.
Já é esperado que, durante o período de estiagem, ocorra uma elevação no valor dos alimentos, principalmente dos que são derivados do leite. Porém, este ano, além da pandemia, outros dois fatores contribuíram para o aumento expressivo.
"A alta do dólar influencia diretamente. Primeiro, porque muitos alimentos são importados. Segundo, porque acaba compensando mais para os produtores exportarem, ao invés de venderem internamente. Além disso, o valor do petróleo também aumentou, o que encarece as embalagens plásticas", explica o economista Carlos Sette.
O profissional acredita que os preços não devem recuar até dezembro, influenciados pelo dólar, que superava R$ 5,70 nesta sexta (30). "O problema é que os salários não acompanham esse crescimento nos valores, o que eleva o custo de vida das pessoas", complementa. Para ele, o momento exige cautela dos empresários, para evitar que as contas entrem no vermelho. "Não há saída milagrosa para esta situação. Como proteção, eles podem racionalizar as compras, optar por marcas mais baratas por enquanto. E tentar negociar com os fornecedores, principalmente os alimentos que estão mais inflacionados", finaliza.