Os cabalistas descrevem a vida como uma noite escura em uma tempestuosa planície. E nela, açoitada pela chuva, perdida na escuridão, a pessoa é acometida pelo desespero. De repente, o fulgor de um relâmpago. Numa fração de segundo o cenário se torna claro como o dia, mostrando o caminho a ser seguido. Porém, a visão desse caminho logo desaparece e a pessoa deve continuar lutando através da tempestade tendo na memória apenas aquele flash de orientação.
Esse é o padrão da vida, inspirações curtas e fugazes seguidas de longas batalhas. As ferramentas necessárias são a determinação, a perseverança e uma obstinada repulsa ao desespero. Provações pessoais que fazem o desespero parecer iminente são, na realidade, como as mãos paternas, que são retiradas para que possamos aprender a andar e viver.
Conta essa tradição que em um certo lugar havia um velho faminto que não comia há uma semana. A cada nascer do sol se levantava da esteira no chão empoeirado de sua choupana e caminhava até o vilarejo próximo procurando por um trabalho. Muitos dias voltava para casa ao anoitecer sem nada nos bolsos, mastigando um galho para enganar a fome.
Então, numa manhã, ele finalmente encontrou trabalho: construir um novo curral para os animais da família mais rica da cidade. Ele suou durante todo dia, sob um sol escaldante, cortando madeira, transformando lenha em estacas. Ao final do dia, seu empregador retirou do bolso um punhado de moedas. Pegou o equivalente a dois tostões e os pôs na mão do magro trabalhador.
Dolorido de fome, o velho cambaleou até o vilarejo, mancou até a padaria e com uma das moedas, comprou um pão. Ele seguiu comendo satisfeito de ter feito um bom trabalho e atravessou a praça para ir até um carrinho de flores.
Com a segunda moeda, o velho faminto comprou um delicado lírio. Até o vendedor de flores, embora grato pela compra, estranhou: "mas, você está faminto", disse o florista, "por que não guarda seu dinheiro para o alimento de amanhã?" O velho mordeu outro pedaço de pão, sorriu e disse: "a primeira metade do meu trabalho assegura minha sobrevivência". Prosseguiu sorrindo ainda mais: "a segunda metade serve para me dar mais uma razão para viver".
O velho faminto aproximou a flor do nariz, inalou com gosto e voltou para casa com o renovado propósito de que, sem trabalho e sem prazer, não pode haver vida.
Para esse velho o pão foi o resultado direto da satisfação de saber que o trabalho foi realizado com sucesso e lhe deu a agradável sensação de, apesar das tempestades da vida, ser ainda produtivo. Cheirar o lírio foi o clarão do relâmpago, o prazer que lhe permitirá seguir caminhando pela vida.
Sem isso toda nossa jornada, toda nossa vida, provavelmente se voltaria para um tédio seco e sem arte. Imagine o mundo sem que pudéssemos ser produtivos e parceiros de Deus no processo de criação. Imagine um mundo sem os verdadeiros amigos, sem carícias, música, dança ou grandes sorrisos. Quem iria querer isso?
O trabalho e o prazer nos incentivam a seguir adiante. Eles nos arrancam da estagnação da rotina, fazem a vida prosseguir. E o que é melhor, tornam divertido prosseguir.
O autor é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica - Faculdade de Engenharia da Unesp Bauru