Nacional

'Os problemas do Brasil são mais domésticos', afirma economista

Vinicius Neder
| Tempo de leitura: 3 min

Rio - Com a eleição de Joe Biden, "muitas das cascas de bananas" que atrapalham a economia global serão removidas, permitindo crescimento um pouco maior no mundo, mas não fará diferença significativa para o Brasil, na análise de Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central e sócio da consultoria Schwartsman & Associados. Para ele, embora um mundo que cresce mais é melhor do que um que cresce menos, os problemas brasileiros são dissociados da política americana.

O mercado tem reagido positivamente à uma escolha de Joe Biden.

Alexandre Schwartsman - Será um governo melhor. Tira muitas das cascas de banana que temos na economia global, mas não todas. Acho difícil, por exemplo, que se volte atrás na política comercial com a China, independentemente se Biden tem visão mais ou menos protecionista do que o Trump. Acredito que seja menos, mas, politicamente, será complicado para ele voltar atrás nessa área.

Isso porque não houve a chamada "onda azul"?

Schwartsman - Estamos contemplando um governo em algum grau dividido. Os democratas vão ficar com a Câmara, um pouco enfraquecidos, e não levaram o Senado. Significa que, com Biden eleito, devem continuar as tensões para aprovar um pacote de estímulo fiscal. Essas dificuldades iriam embora se houvesse a onda azul e os democratas levassem o Senado. Aí haveria condição de mudança importante do ponto de vista de políticas de estímulo fiscal.

O que melhora?

Schwartsman - Veremos uma postura mais razoável sobre o Acordo de Paris. É mais positivo para o mundo. O Biden é uma pessoa com a qual se pode conversar, é bem preparado. É positivo, mas não será um milagre, não resolve as guerras comerciais que vão continuar, ainda que num tom abaixo, e o conflito entre China e EUA segue valendo. O que se teria é uma pessoa mais bem preparada para lidar com isso.

Um governo mais preparado pode destravar investimentos para emergentes como o Brasil?

Schwartsman - Acho que não muda tanto porque, a rigor, o que Trump vem fazendo não nos afetava tanto. Não acho que vire o jogo, especificamente para emergentes. Teremos uma melhora geral e, num quadro de melhora geral, o apetite para risco cresce e alguma coisa vai melhorando.

A melhora na economia global poderia gerar uma onda positiva para a economia do Brasil?

Schwartsman - Os problemas brasileiros são mais domésticos do que internacionais. O que talvez pudesse ajudar seria um novo boom de commodities, como vimos de 2003 a 2011, mas isso não me parece depender do que vai ocorrer nos EUA. Se houver alguém que consiga lidar com os problemas americanos com um pouco mais de habilidade, inclusive a questão da pandemia, haverá algum crescimento a mais. Ajuda, mas o problema brasileiro está dissociado do que está ocorrendo lá fora.

Qual o principal problema do Brasil?

Schwartsman - É um problema de várias faces. A mais importante é a fiscal. Não há nada que o presidente americano faça ou deixe de fazer que mude nossa realidade nesse aspecto. Não depende dele, depende da gente. Temos estrutura tributária complicada, um clima de negócios horroroso e um governo que não consegue endereçar essas dificuldades. Obviamente um mundo que cresce mais é melhor que um que cresce menos, mas não é aí que resolvemos nosso nó. Nosso nó tem a ver com nossa disposição de encarar esses problemas e mudar a estrutura institucional que deu origem a eles. Sabemos o que precisamos fazer, mas não fazemos.

Há algo que pode piorar para o Brasil, como na área ambiental?

Schwartsman - Imagino que sim. Talvez nos force a reconsiderar o rumo que estamos tomando. Já tomamos uma traulitada numa pedra cantada, no acordo com a União Europeia, que de fato era uma baita conquista, e jogamos no lixo por causa da questão ambiental. Talvez um governo democrata nos EUA que dê mais ênfase a esse tipo de coisa mude algo, mas isso é importante para começarmos a fazer a coisa certa para o nosso bem.

Comentários

Comentários