Articulistas

Ah, esses velhos novos

Adilson Roberto Gonçalves
| Tempo de leitura: 2 min

Ou novos velhos, como queiram, que também poderia ser o título dessas reflexões. A experiência tem sido substituída pela velhaquice e o rejuvenescer não supera o oportunismo dos que se travestem de bom moços.

Tabata Amaral insiste em fazer o discurso do novo em suas colunas, como por exemplo a intitulada "Meu voto é na esperança" (Folha de S. Paulo, 19/10), mas tem sido uma grande decepção, por ser representante da "direita pão com manteiga" - aquela que prega proximidade com o povo, mas quer que cada um continue no seu lugar, sem o pobre "invadir" o espaço do rico.

O discurso de renovação política é falacioso porque, com isso, tudo o que era bem construído e funcionava também foi desmontado e originou esse desgoverno que habita Brasília há quase dois anos. Bons princípios feitos com novos olhares foram trocados por más condutas feitas pela mesma velha política.

Entendo que nosso país, além do desmonte institucional e da demonização da política, passa por um processo de "desbrasilização" cultural, que ficou muito mais claro na argumentação que o escritor Ruy Castro fez em artigo que ele chamou de biografia amputada de Janis Joplin, a cantora que viveu o carnaval no Brasil no ano em que morreu. Foi, assim, abreviada a presença e a importância do Brasil na vida da biografada, pois parcas linhas foram destinadas àqueles dias que ela aqui viveu intensamente, segundo vários relatos. Não é questão nova, mas, agora, não há resistência interna oficial para combater essa desbrasilização, conforme eu chamo. Pelo contrário, nossas próprias raízes culturais de formação do povo estão sendo sistematicamente apagadas da memória. Substituímos a história calcada no sangue índio e africano por twittes e mensagens de WhatsApp.

A velha prática do 'conversê' ao pé do ouvido por esses meios 'novos' move o desgoverno de Bolsonaro. Os exemplos mais recentes passam pela mudança de compromisso com as vacinas, exclusivamente em função de comentário de bolsomínion das redes sociais, e a 'vira-latice' de não cumprimentar Joe Biden por sua vitória nos Estados Unidos.

O autor é pesquisador da Unesp-Rio Claro, adilson.goncalves@unesp.br

Comentários

Comentários