Tribuna do Leitor

Réquiem para Marcelo Borges

Cláudia Leonor G. A. Oliveira, historiadora, membro da Academia Bauruense de Letras.
| Tempo de leitura: 3 min

Travessia. Passagem. Tristeza. Restam as lágrimas. Dos primos, você era o mais carinhoso, sempre a fazer um afago nos meus cabelos, em meio às explicações do cenário político de Bauru para o papai. Eu gostava de dizer que em casa ainda existia o voto de cabresto, meu pai sempre me dava o "santinho" do candidato que você estava apoiando, na manhã da eleição - isso não quer dizer que eu obedecia cegamente papai.

Lembro-me de quando você teve hepatite. Mamãe fez questão de cuidar de ti, tirou-te de tua república - aquela que ficava na sobreloja da Pizzaria Vila Rica - e levou-te para casa. Lembro-me dos bifes grelhados e da macarronada com pouca manteiga que ela fazia pra ti. Óbvio que você ficou bom logo. Talvez porque quisesse voltar logo às suas atividades, talvez fosse pelo carinho dela. Nós só podíamos ir até a porta de seu quarto, conversar de longe. Você já militava no Diretório Acadêmico da Engenharia e despontava como uma liderança política, eu era uma pirralha... Demorou para você perceber que eu cresci. Foi preciso muitas cervejas (muitas lá no Bar do Epa, outras em casa), risadas e um bocado de conversas sobre política. Ainda neste ano, em fevereiro, na última vez que nos encontramos na casa de meus pais, me chamou de menininha... Nunca deixou de ser carinhoso conosco. As tuas histórias de participação nos congressos da UNE - União Nacional dos Estudantes - deixavam mamãe de cabelo arrepiado e ela rezava para você não ser preso. Vivíamos o final da ditadura aqui no Brasil. Creio que foi toda a reza dela que te protegeu nesses momentos. Lembro-me de uma história em especial. Você voltara de viagem, de um desses congressos e resolveu ir pra nossa casa, não sei o porquê. Abriu o portão, sentou-se na cadeira da varanda e enrolou-se num cobertor. Dormiu, era perto das cinco horas da manhã e você devia ter viajado mais de 30 horas de ônibus. Naquela época, o padeiro deixava o pão quentinho justo naquela cadeira.

Levou um baita susto, ao ver o suposto ladrão, barbudo - como muitos militantes da época o eram -, a descansar. Detalhe: a gente não trancava o portão. Vou sentir falta dessas histórias e de tantas outras que você nos contava dos bastidores políticos da cidade. Este ano não terei o "santinho" do seu candidato à mão e provavelmente não teremos festa de fim de ano em família. Pouco antes de saber que você tinha partido ao fim da tarde, a cidade foi varrida por um forte vento, desses revoltosos, uma nuvem de poeira levantou e fez-se noite mais cedo. Gosto de pensar que era você despedindo-se dessa cidade que tanto amou, que conhecia como a palma de sua mão: a periferia, os problemas, as pessoas. Dizem que você era um grande articulador e que Bauru perdeu um político nato. Eu perdi um primo.

Nesta tristeza, nossa família se irmana a tantas outras famílias que - independente de orientação política, classe social ou credo religioso, perderam entes queridos neste nefasto ano de 2020, o ano da "grande pandemia" e do pandemônio que ela trouxe a reboque. A rede que você trouxe de um desses congressos, de presente para meus pais, hoje balança vazia... Hoje tudo está tudo muito triste... Um beijo grande, Marcelo, primo querido... Bauru, 10 de novembro de 2020, 4h18.

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