Uma sociedade ou economia que não cresce, morre mais cedo ou mais tarde. No entanto, o crescimento quantitativo ilimitado em um planeta finito é claramente insustentável e pode nos levar a um desastre. A obsessão por esse tipo de crescimento precisa ser reconhecido como uma das causas de nossa multifacetada crise global. Combinam-se para exercer violentas pressões sobre os recursos naturais, nos países em desenvolvimento, o crescimento populacional e a pobreza que formam um ciclo que se retroalimenta e nos países industrializados, o consumo excessivo e o desperdício.
O uso intensivo de energia e de combustíveis fósseis, necessários para esse crescimento, intensificam os efeitos da mudança climática que se manifestam no aumento de tempestades destrutivas, incêndios florestais, ondas de calor e seca e o derretimento do gelo - tanto das geleiras como do gelo polar. Esses efeitos ameaçam a segurança alimentar e, muito brevemente, resultarão em milhões de refugiados climáticos e na desintegração da lei e da ordem pública e no aumento do número de conflitos. Hoje o processo de desenvolvimento precisa ser compreendido como sendo mais do que um processo puramente econômico. Ele precisa incluir as dimensões sociais, ecológicas, culturais e espirituais para ser efetivamente sustentável. O bom crescimento é o crescimento de processos e serviços mais eficientes, que interiorizam plenamente os custos, envolvem energias renováveis, reciclagem contínua de recursos naturais e restauração dos ecossistemas da Terra.
A chegada dos carros elétricos ao mercado, por exemplo, é apontada como muito benéfica ao meio ambiente. Isso é verdade, especialmente quando se fala na melhoria da qualidade do ar. Mas junto com os 140 milhões de elétricos que, se acredita, estarão no mercado em 2030, chegam dois grandes problemas: como conseguir a matéria-prima para construir essas pesadas baterias e o que fazer com elas quando não for mais possível recarregá-las? Até o momento parece impossível que isso aconteça sem violentas agressões ao meio ambiente. Na construção dessas baterias são usados metais como níquel, cobalto e lítio.
Para obtenção de uma tonelada desse último, são necessários cerca de dois milhões de litros de água e produtos químicos altamente tóxicos para desprendê-lo das rochas. A mobilidade deveria estar atrelada ao oferecimento de um transporte urbano de qualidade, a produção de ônibus e trens e ao replanejamento de nossas metrópoles. Até o desmantelamento da produção local aumenta dramaticamente a distância entre a fazenda e a mesa. Segundo o artigo "Food miles and the relative climate impacts of food choises in the United States", publicado pela Environmental Science and Technology, nos Estados Unidos, um quarto de quilo de alimento viaja, em média, mais de oito mil quilômetros antes de ser consumido.
Muitos ambientalistas têm assinalado a tendência de empresas transnacionais usarem as regras do livre comércio para comprar ou realocar no hemisfério Sul, as indústrias mais poluentes e que fazem uso intensivo dos recursos do planeta. Enfim, mais uma vez, se verifica que os recursos naturais se movem dos pobres para os ricos e a poluição se move dos ricos para os pobres. Parece que estamos vendo o processo acelerado da maior extinção que já ocorreu neste planeta: a extinção do ser humano pelo ser humano. Que vem acompanhada de outra: a extinção de todos os valores que deveriam fazer do homo sapiens um ser, realmente, humano.
O autor é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica Faculdade de Engenharia da Unesp – Bauru.