Gloria Pires não fala sobre política. Também não dá detalhes sobre os trabalhos que fez e dos quais se arrependeu. E não comenta o comportamento de terceiros. Tudo isso, avisa, é consequência do feito de aprender a dizer não. Graças a ele, hoje consegue estabelecer melhor seus limites, inclusive em sua própria casa.
Se a maturidade trouxe sono difícil e cabelos brancos (assumidos, apesar de protestos familiares), trouxe também mais liberdade para se mostrar como realmente é. Não que envelhecer seja moleza. "Mas é mais fácil quando você abraça essa condição", diz. Durante o confinamento, a atriz chegou a tingir os fios para uma campanha publicitária. Depois voltou a deixá-los ao natural. "Estou me sentindo bem, bonita, empoderada mesmo."
Foi também durante a quarentena que a atriz retomou o convívio com toda a família dentro de casa: o marido, o cantor Orlando Morais, os quatro filhos (Cleo, Antonia, Ana e Bento) e o gato Garfield. "Fomos para a casa de Brasília pensando em passar um ou dois meses e ficamos seis", lembra. "Junto com o susto, com a expectativa, com o medo, tive momentos de muito prazer, de estar com a família sem ter que sair, viajar, tirar férias."
Mas nem tudo foram passeios no lago Paranoá. A convivência intensa trouxe dificuldades. "Como antes eu estava sempre trabalhando, delegava muito. Quando as trovoadas aconteciam, raramente estava junto", conta. "Agir nesses momentos, procurar a palavra certa, a atitude justa no meio da tempestade, foi um enorme aprendizado." Às vezes, a atitude certa era impor limites, dizer "não". E será que Gloria pode citar um episódio em que isso aconteceu? "Não posso", responde, rindo e, mais uma vez, exercitando o "não".
Na TV desde os 8 anos, quando viveu a pequena Fátima na novela "Selva de pedra", Gloria está aprendendo a assumir papéis que vão além do de atriz. Produziu o filme "A suspeita", com lançamento adiado por causa da pandemia. E atua como empresária na Bemglô, marca lançada em 2014 com Orlando e a amiga Betty Prado. Inspirada inicialmente na Goop, da atriz Gwyneth Paltrow, a Bemglô oferece uma seleção de produtos de diversas áreas, com foco em consumo consciente.
Outra novidade é uma coleção, lançada este mês, em colaboração com a marca Suntime. São roupas em tecidos sustentáveis, com otimismo nas frases estampadas - "Dias glorioses", "Dias verdes virão" e "Vivemos dias mulheres". "Eu queria que fossem roupas que pudessem ser usadas em casa, mas também, com uma produção diferente, para trabalhar, para sair, para se divertir." A seguir, alguns destaques da conversa.
QUARENTENA
"Foi algo novo ter o marido e os quatro filhos em casa. A melhor parte foi estar com eles. Duas filhas já moravam sozinhas, teve essa volta. E o Orlando é uma pessoa que viaja muito. Então, como casal, a gente também teve que fazer ajustes. Sinto que aprendi muitas coisas. Uma delas foi assumir o meu lugar como dona da casa e mãe dessa família. Na lida diária."
MUNDO PÓS-PANDEMIA
"Coisas simples, como um abraço ou um beijo, ganharam outro peso. Reencontrei a minha irmã, tinha seis meses que a gente não se via, e a abracei. Eu tinha feito um teste para fazer um trabalho, e ela também fez. Foi um alívio."
MAIS VERDE
"Essa ideia de que o ser humano é quem manda e o dinheiro pode tudo nos trouxe aqui, com coisas boas, mas com essa barra pesada que estamos vendo: ar insuportável, águas poluídas. Mas espero boas notícias em breve. As pessoas vão entender que isso não é ser hippie. Não tem um plano B para um planeta."
CABELO BRANCO
"Eu estava querendo deixar meu cabelo branco há algum tempo. Mas na última novela, 'Éramos seis', como transcorriam 30 anos na história, seria complicado: o consenso foi que eu deveria ter o cabelo pintado e ir fazendo os brancos de acordo com a continuidade. Quando acabou, falei: 'Agora vou deixar'. Todo mundo foi contra, o marido, os filhos. Mas fui ficando. E estou adorando. Estou me sentindo bem, bonita, empoderada mesmo."
ENVELHECIMENTO
"O sono muda muito. Tem vezes que durmo melhor, tem vezes que durmo pior - me trato com medicina ortomolecular, tenho uma suplementação, faço meditação. Mas é um processo. É mais fácil quando você abraça essa condição. Vivi 57 anos, tenho rugas, flacidez, estes cabelos são meus. E isso não me faz sofrer. E minha saúde é melhor agora: quero ter saúde para curtir minha velhice e tudo pelo que trabalhei."
NÃO ESTOU DISPOSTA
"Dizer 'não' sempre foi uma questão, mas hoje é mais fácil. O aprendizado em casa também passou por aí. O anjo do lar de que a Virginia Woolf falava, eu nunca tinha percebido que me rondava, mas percebi na quarentena (no texto da escritora britânica, o anjo é um espectro de mulher simpática, pura e altruísta, pronta a se sacrificar e sacrificar suas vontades e opiniões). E isso foi importante: entender os meus limites.".
CLEO
"Tenho muito orgulho do posicionamento dela. Ela tem muita força. Está no caminho certíssimo. Só quero que sofra menos, leve menos a sério essas pessoas. Espero que ela consiga chegar nesse lugar de não sofrer, seguir o caminho dela, dar o exemplo de que é essa mulher forte, empoderada, que tem opinião e não tem medo. Eu a aplaudo."
32 ANOS DE CASAMENTO
"O casamento evoluiu com altos e baixos, mas sempre com uma espécie de certeza de que ele me entende, sabe? É meu parceiro. É uma pessoa em quem eu tenho confiança, liberdade."
SEXO
"Costumo dizer que o sexo é igual a leite materno. É um negócio que começa na sua cabeça: no quanto você se sente aceita, à vontade. É uma coisa construída. E a minha experiência é que com o tempo fica melhor. Fica muito melhor com confiança, com liberdade. Até para dizer: 'Não estou a fim. Não estou disposta' (risos)."