Foi sobrecarregado de um aborrecimento lamentoso que percebi que já estamos aos pés de 2021 e a mercê de suas várias possibilidades, ao som - como não poderia deixar de ser - de "Bigmouth Strikes Again", dos Smiths.
São vários os momentos como este em que, num milésimo de segundo, as lembranças de uma época de ouro já longínqua sob o horizonte marcam aquilo que chamamos de "tempos passados". Épocas em que caminhar grandes distâncias a pé com os amigos não significava cansaço, mas horas de conversação e, ao contrário do que muitos possam pensar, as dores nas pernas e o suor no rosto eram sinais de amizade, pois as dores quando compartilhadas transformam-se em ânimo e o suor, em coragem. E é justamente isso que nos faltou este ano. A dores compartilhadas deram lugar a um sofrimento solitário e demasiadamente prolongado.
Partindo aos fatos, segundo a Organização Mundial da Saúde, os óbitos confirmados causados pelo coronavírus ultrapassam os 171 mil no País. É um momento de tensão em que devemos nos solidarizar com as irreparáveis perdas de brasileiros que são, sobretudo, o amor de diversas famílias. Mas devo considerar, contudo, que é em momentos como este em que o ser humano mais aprende, pois, sendo limitado, aprende quase sempre pelos meios mais difíceis. Talvez seja um resquício genético herdado de nossos antepassados que ainda não sabiam que sabiam das coisas a sua volta ou - o que é mais provável - seja apenas uma casual ruína para nós mesmos.
O isolamento social teve seu importante papel para a contenção do vírus (e que continue a ser respeitado), mas trouxe consigo a solidão, o sentimento de afastamento e, talvez para alguns, a renúncia a um modo de vida mentalmente saudável. É neste cenário que tomamos conta de algo esplêndido para a consciência humana: a sensação de que somos demasiadamente humanos finitos, transitórios, passageiros e tudo o mais que o leitor puder relacionar com a palavra efemeridade.
Admito, aqui, que a música é e sempre foi um componente importante para a reflexão, pois abre caminhos entre regiões fronteiriças que percorrem da felicidade para a melancolia num milésimo de segundo. A voz de Morrisey no auge dos anos 80 detalham com talento o que significa a melancolia, exemplificando em sua tonalidade vocal a voz de uma juventude perseguida ao qual responde "Sweetness, I was only Joking..." enquanto não encontra mais o seu direito de assumir o seu lugar na raça humana. É este o sentimento de vários jovens como eu, agora, e Morrisey em sua época.
2020 veio para nos ensinar aquilo que diariamente desde a antiguidade insistimos em ignorar: somos seres de passagem e não de permanência. Momentos ruins sem ensinamentos se tornam parte de um passado obscuro que não nos deve pertencer. Pois deixe que nos ensinem, que nos instruam, que nos iluminem.
O autor é pederneirense e estudante de Jornalismo pela Unesp – Bauru.