Ela já trabalhou como empregada doméstica, vendedora, cobradora de ônibus, secretária e se considera uma catadora de recicláveis, uma vez que atua na área de descarte desde 2013. De ofício em ofício, tornou-se uma líder comunitária que sabe o quão importante é saber analisar o tabuleiro político da cidade. "Aprendi a usar o lixo para o bem das pessoas", complementa a presidente da Cooperativa Ecologicamente Correta de Materiais Recicláveis (Coopeco) e da Associação de Catadores de Materiais Recicláveis (Ascam), Gisele Moretti, de 52 anos. A associação gere os ecopontos de Bauru.
Caçula do motorista José Moretti e da feirante Conceição Matheus Moretti, ambos já falecidos, Gisele possui dois irmãos, a salgadeira Clarice Conceição Moretti, de 65, bem como o construtor Adilson Moretti, de 57.
Natural de Bauru, a profissional tem uma única filha, a advogada Jéssica Ribeiro Costa, de 28, além de um neto, o pequeno Alcides Costa Neto, de apenas 7 meses. O coração de Gisele também reserva um espaço generoso para a vira-latas Pirata, de 6 anos.
Abaixo, ela conta, por exemplo, como encontrou forças para, a partir de um momento difícil, reivindicar melhores condições de vida para a família e a comunidade. Confira alguns trechos da entrevista.
Jornal da Cidade - Começou a trabalhar muito cedo?
Gisele Moretti - Eu comecei a trabalhar aos 14 anos. Já atuei como empregada doméstica, vendedora, cobradora de ônibus e secretária. Deixei o trabalho para virar autônoma. A principal característica da minha família corresponde ao fato de querermos ser donos de nós mesmos. Diante disso, comprei um trailer e passei a fazer lanche para o pessoal da Unesp em frente à minha casa, lá no Geisel mesmo.
JC - Você é casada?
Gisele - Já fui casada com o pai da minha filha. Eu o conheço desde que nós tínhamos 11 anos, porque estudávamos juntos. Deixei um noivo faltando um mês para o casamento e, certo tempo depois, começamos a nos relacionar. Decidimos, então, tentar a vida em Taquarituba, onde moramos por apenas quatro meses.
JC - Passou a viver no Ferradura assim que voltou de lá?
Gisele - Não. Nós tínhamos uma casa na Vila São Paulo, mas precisamos vender, porque o meu então marido ficou com amnésia após sofrer um acidente muito grave, exigindo cuidados especiais. A partir daí, nos mudamos para a favela. A minha filha estava com 2 anos. Quando caímos no Ferradura, ganhei um presente, afinal, vivia em um mundo alienado da realidade. Lá, passei a brigar por melhores condições de vida.
JC - Você obteve algum resultado neste sentido?
Gisele - Eu chamei o pessoal do Programa Fogo Cruzado, do Roberto Bueno. O pessoal mandou uma caminhonete e logo peguei o microfone para chamar a atenção do então prefeito Nilson Costa, que havia acabado de assumir. Duas horas depois, ele chegou à minha casa, onde se reuniu com outros moradores do bairro. Desde então, a visita do chefe do Executivo ao Ferradura virou rotina e os problemas começaram a ser resolvidos.
JC - Como entrou para o ramo da reciclagem?
Gisele - Há sete anos, eu era presidente da Associação dos Moradores do Ferradura Mirim. Com a construção dos apartamentos do Programa Minha Casa Minha Vida (MCMV), muitos catadores passaram a viver por lá e não tinham onde deixar os materiais recicláveis. O dono de um barracão abandonado me procurou para perguntar se eu não queria tomar conta. Uni o útil ao agradável, momento em que nasceu a Coopeco. Até então, nunca havia separado lixo, jogava tudo no orgânico.
JC - Além de ter desenvolvido a sua consciência ambiental, o que mais você aprendeu ao trabalhar com o lixo?
Gisele - Lá na cooperativa, há uma moça que mal sabe ler e escrever, mas trabalha melhor do que quem fez faculdade. Eu também não tenho o Ensino Superior completo, só comecei a cursar pedagogia e direito. Mesmo assim, mais de 100 pessoas trabalham sob o meu comando e conseguimos vender algo muito barato: o lixo. Aprendi a usá-lo para o bem das pessoas.
JC - A Ascam reúne três cooperativas?
Gisele - Sim, a Coopeco, a Cooperbau e a EcoRecicla. Nós gerimos os oito ecopontos da cidade. Para você ter ideia, de janeiro a novembro de 2019, quando a Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma) administrava estes locais, foram feitos 10.555 atendimentos. De lá para cá, nós realizamos 156.048. Além disso, em parceria com a Cootramat, também cuidamos do lixo oriundo da coleta seletiva.
JC - Você comentou de histórias tocantes do pessoal que trabalha com você.
Gisele - Eu não só trabalho com catadores como me considero uma. Todas são emocionantes, mas eu gostaria de destacar duas. A primeira envolve uma senhora de 69 anos. Com o seu trabalho, ela consegue garantir que nada falte aos seus cinco netos. Outra trabalhadora, de 29 anos, deixou o mundo das drogas para virar uma mulher empoderada.
JC - Por fim, como você se vê daqui para a frente?
Gisele - Eu prefiro não pensar no futuro. Porém, tenho consciência de que não durarei para sempre. Já comecei a pensar em outros líderes para a cooperativa, afinal, os benefícios sociais desencadeados pela entidade não podem acabar.