Carta aberta de um grupo de pediatras de Bauru à sociedade bauruense
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Nas últimas semanas temos acompanhado discussões e manifestações nos diversos meios de comunicação a respeito da volta às aulas em tempos de Covid 19, e junto delas, muita desinformação bem como manipulação de informações verdadeiras, perpetuando e intensificando o medo já disseminado na sociedade, e estimulando a divisão e a discórdia no já velho e conhecido ringue do "A FAVOR X CONTRA". A volta às aulas não é questão de "opinião pessoal e torcida sobre em que lado se está", mas sim de "para onde todos queremos caminhar como sociedade". E justamente por isso deve ser pensada sabiamente e construída com muitas mãos, como um caminho em que se possa dar passos no presente almejando um futuro auspicioso. É fato que quando essa história começou, nada sabíamos sobre esse vírus, sobre formas de transmissão, gravidade, fatores de risco para desenvolver doença grave, sobre como se proteger, e de que forma tratar. Muitas mortes ocorreram, muito medo se disseminou, e o isolamento se fez necessário, juntamente com o fechamento de tudo o que não fosse essencial. E escolas também foram fechadas. Porém EDUCAÇÃO É ESSENCIAL. Sem educação não há saúde. Não há moral, nem ética, nem esperança, nem consciência de si e do próximo. Sem educação reina o instinto e não o espírito. Mas infelizmente se fez necessário. Pois temia-se que crianças fossem grandes e potenciais disseminadoras do vírus, e que fossem mais suscetíveis e pudessem ser afetadas mais gravemente como, em parte, ocorre com a H1N1. Porém, decorrido quase um ano de convivência com esse vírus, é necessário fazer escolhas e tomar decisões baseadas no que hoje sabemos e aprendemos, e não mais no que tememos, ou em interesses individuais e/ou político-ideológicos. Sabemos hoje que crianças de qualquer faixa etária podem se infectar e transmitir o vírus da Covid 19, mas sabemos também que elas representam a menor parcela da população acometida mundialmente (cerca de 8% dos casos no mundo são de crianças entre 0 a 18 anos). Sabemos que crianças contaminadas se apresentam sem sintomas ou com sintomas leves a moderados na maioria absoluta dos casos (cerca de 90% ou mais). E que, mesmo podendo haver casos graves em crianças, como a síndrome inflamatória, que foi bastante divulgada e causou pânico nos pais e avós, a chance de cura e recuperação é alta (tivemos alguns casos em Bauru, todos com boa recuperação). Sabemos também que a mortalidade por Covid 19 em crianças é muito baixa, entre 0-0,4% ao redor do mundo, 0% em Bauru até o momento. Com alívio verificou-se que as crianças em geral reagem muito bem ao vírus da Covid 19, o que contribui para as decisões de que crianças não serão as primeiras da fila a serem vacinadas. E verificou-se ainda que as crianças abaixo de 10 anos têm demonstrado um potencial menor de transmissão o vírus quando comparado com adultos, talvez por apresentarem pouco ou nenhum sintoma, o que é importante pois nessa faixa etária o uso de máscaras necessita de supervisão mais constante, inclusive no retorno às escolas. Concomitante a essas informações que confortam, temos acompanhado, de perto e com tristeza, o crescimento de outros transtornos graves de saúde em crianças e adolescentes submetidos ao isolamento social, privados da escola e de tudo o que ela oferece para a formação do ser humano, e expostos abusivamente ao uso de telas para educação e lazer, em todas as classes socioeconômico-culturais, no mundo e em nossa cidade. Doenças psíquicas, distúrbios emocionais e comportamentais, como ansiedade, pânico, depressão e auto mutilação, que culminam no aumento do índice de suicídio infanto-juvenil e no uso de tratamento medicamentoso psiquiátrico muito acima do habitual nessa faixa etária. Obesidade, anorexia e outros distúrbios nutricionais relacionados a mudança na qualidade/quantidade de alimentos consumidos e sedentarismo. Exposição a diversas formas de violência doméstica e virtual. Exacerbação de doenças de pele e distúrbios do sono entre outros . Estimativas de perda cognitiva para crianças e adolescentes em educação a distância, e por vezes sem supervisão de adultos, com perspectivas de 3-5 anos para serem recuperadas. Dado o exposto acima, nós, Pediatras, responsáveis pelo cuidado das crianças (e suas famílias) acometidas por Covid 19 e por esses outros transtornos, consideramos fundamental trazer algumas considerações para a necessária construção desse possível caminho de volta às aulas para 2021: 1- Ao redor do mundo todo, a experiência de volta às aula, seguindo protocolos de biossegurança recomendados para esse fim, têm sido exitosas e escolas têm permanecido abertas mesmo em meio a 2ª onda, apontando para o fato de que pode haver sim um aumento no número de casos com o retorno, mas este não provoca um impacto negativo no cenário de saúde local, em termos de aumento no número de óbitos ou gravidade. Algumas experiências não exitosas e com grande aumento da transmissão entre educadores e crianças, como em Israel e na Georgia, não seguiram as medidas de biossegurança recomendadas, como uso de máscara e distanciamento social. 2- Observando o que deu certo ou não, autoridades municipais, estaduais e federais, gestores e profissionais da Saúde e da Educação, devem trabalhar juntos, buscando compartilhar conhecimentos e experiências, e a implantação das condições que garantam um retorno seguro tanto para as crianças e adolescentes, como para educadores e profissionais da educação, na rede pública e privada. 3- As dificuldades enfrentadas pelos profissionais da educação pública são grandes, no Brasil e em Bauru. Também muitos de nós somos profissionais da saúde atuantes na rede pública. E vivemos, no começo da pandemia (e por vezes ainda hoje), muitos desafios que assolam a Educação agora. Trabalhamos com falta de máscaras e outros equipamentos de proteção, com dificuldade para a limpeza e desinfecção adequadas do nosso ambiente de trabalho, tivemos medo por nós e pelos nossos, perdemos entes queridos e colegas de profissão, voltamos a trabalhar sendo considerado grupos de risco (ou nem paramos), reinventamos a prática do atendimento, e passamos a desempenhar múltiplas funções para lidar com a falta de equipe e insumos. 4- Alguns relatos ao redor do mundo apontaram uma maior transmissão entre os adultos nas escolas que retornaram as aulas presenciais que entre as crianças. E que o caso índice na maioria das vezes se contaminou fora do ambiente da escola. Vivemos experiências parecidas na saúde, com transmissão entre os profissionais de uma mesma equipe quando não houve respeito pelo distanciamento e uso de máscara. E esse é um ônus que deve ser atribuído aos adultos, que devem procurar ser responsáveis e cuidadosos consigo e com o próximo, e não às crianças. 5- Foi também observado que, em até 75% das vezes, as crianças índice da infecção nas escolas, tiveram antes um contato com adulto doente ou suspeito em seu convívio familiar, e foram para escola mesmo assim, o que não é recomendado pelos protocolos de biossegurança elaborados para a volta às aulas. 6- Faz-se necessário investir em treinamento, orientação e conscientização para profissionais da educação, alunos e familiares sobre a importância de não comparecer à escola com sintomas ou após contato com casos suspeitos ou confirmados, e realizar monitoramento de sintomas, promovendo assim proteção e segurança maior, mais eficaz e barata no retorno às aulas do que a aquisição de tapetes sanitizantes, aparelhos de ozônio, luz ultravioleta e outros equipamentos e acessórios similares. 7- As particularidades individuais e familiares dos alunos e profissionais, bem como as particularidades estruturais de cada escola, e a situação epidemiológica de cada localidade devem ser respeitadas nas tomadas de decisões, de modo que é hora de ampliar o diálogo e diminuir imposições e verdades absolutas. 8- Hoje a vacina contra a Covid 19 já demonstra ser uma possível e breve realidade. Porém, profissionais de saúde na linha de frente ou não, bombeiros, militares, profissionais do comércio, profissionais autônomos, lixeiros, motoristas, empregadas domésticas, babás, e tantos outros profissionais, não deixaram de atuar presencialmente em seus postos mesmo sem ela. E para isso acontecer, crianças estão ficando sozinhas em casa sem idade e autonomia para isso, ou aglomeradas sob cuidados de terceiros, em condições e locais inapropriadas, sem fiscalização, e de maior risco de transmissão do que estariam nas escolas. Diante desses esclarecimentos, assinamos essa carta-aberta com a convicção de que é necessário olhar para a Escola e para os profissionais da educação como Essenciais. Com a convicção de que, ponderados os riscos e benefícios, o fiel da balança nos aponta para a necessidade de tornar sim, possível e com urgência, a reabertura das escolas de maneira segura e organizada para o ano letivo de 2021, independente da disponibilidade de vacinas, e já cientes dos possíveis novos e cíclicos aumentos nos números de casos da doença no Brasil e no mundo (que ocorrem mesmo com escolas fechadas). Com a convicção de que os desafios não serão poucos, como não têm sido para nenhum outro segmento da sociedade, que foi obrigado a se recolher e depois se reinventar, mas que não podemos mais nos abster de enfrentá-los com coragem, prudência e boa vontade em prol da saúde e desenvolvimento das crianças e jovens de nossa cidade, de nosso país. Nós, pediatras atuantes na rede pública e privada de Bauru, nos colocamos a disposição para ajudar nesse caminho, e assinamos essa carta.