Falando desse jeito, só pode ser um boçal. Basta se ver em situação difícil, o boçal recorre à chamada "carteirada". Infla o peito e, com o dedo em riste, anuncia-se desembargador, deputado, médico, como se isso fizesse dele mais gente do que toda gente. Com mania de aristocrata, o boçal costuma frequentar os lugares mais badalados e, na primeira oportunidade, não hesitará em sacar a carteira da boçalidade para mostrar quem ele pensa que é.
No restaurante Gero, em São Paulo, um cidadão aprontou um "barraco" espetacular. Não podendo ser atendido por causa do horário do fechamento da casa, previamente determinado em razão da pandemia, ele logo desvestiu-se da cidadania para, em nova roupagem, anunciar-se médico, fazendo questão de dizer que tinha CRM em plena vigência. Exigia, portanto, atendimento diferenciado de que se julgava merecedor. A discussão logo ganhou a participação de outras mesas e, como costuma ocorrer em tempos de pandemia, com muito calor e mato seco, o elitizado restaurante pegou fogo. Foi então que surgiu um coro ritmado de palmas exigindo aos berros a identidade profissional do médico: CRM! CRM! CRM! Não faltaram, claro, as frases barracais: "Tira a mão de mim!", "você não tem berço", "chama a polícia!". Foi só falar em polícia, um novo boçal deu uma "brother-carteirada", dizendo-se irmão de um importante delegado federal. Não querendo perder o protagonismo, o médico deu a segunda carteirada, disse já estar ligando para o "meu" delegado. Usando o pronome possessivo, o médico sequestrou a autoridade policial que, naquele momento, passou à condição de delegado de "uso individual".
A tevê cansou de mostrar outro episódio, o do desembargador multado por um guarda municipal, em Santos, por recusar-se a usar máscara. Inconformado, o desembargador balançou-a carteira na cara do fiscal e, ainda por cima, o chamou de analfabeto. Depois, rasgou a multa e a jogou no chão. Hoje, felizmente, nada escapa do celular, a boçalidade, que poderia ser ignorada, acabou virando notícia. Em julho, na aglomeração de um bar, no Rio de Janeiro, uma mulher subiu no pódio para dizer ao fiscal: "Cidadão não, engenheiro civil, formado, melhor do que você!
O antropólogo Roberto DaMatta afirma que a mania da carteirada faz parte de uma cultura de forte aversão ao igualitarismo, o que promove uma enorme contradição com a democracia republicana que lutamos por conquistar. Alcançar melhor situação de respeito e de igualdade entre as pessoas é ainda uma miragem, tal é a força da cultura que nos divide em "doutores" e cidadãos de segunda classe. O pior é que muitas vezes aceitamos tal comportamento. Assim que a carteira sai do bolso, os doutores são reverencialmente atendidos, numa demonstração de vergonhosa vassalagem. O que dizer da frase "espaço reservado para autoridades"? Como não lembrar o passado das igrejas, nas quais os nobres tinham lugar preferencial? E os elevadores sociais e os de serviço, que discriminam as empregadas domésticas? O que dizer da "prisão especial" para os portadores de diplomas de curso superior?
Apesar de reconhecer o peso cultural de uma sociedade construída por tijolos de privilégios classistas, temos que continuar a luta para que um dia o cidadão possa ser respeitado apenas pela sua condição humana. Esse sim, um sonho republicano.
O autor é professor de redação e autor de obras didáticas ficcionais.