"É um pequeno passo para um homem, um grande salto para a Humanidade", disse o astronauta Neil Armstrong ao pisar na Lua no dia 20 de julho de 1969. Se ao receber a notícia da declaração de pandemia do coronavírus, pela OMS, em março deste ano, em vez de fazer pouco caso, Bolsonaro tivesse assumido a posição de Chefe de Estado, conclamando todos a cerrarem fileira em torno do ministro da Saúde para combater o implacável inimigo, ele teria dado um pequeno passo para um presidente e um grande salto para o povo brasileiro.
Não dá para dizer que ele não fez nada, porque, mesmo a contragosto, não pode se eximir. Veja o que disse o prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil: "Vamos ser muito sinceros, ele derramou dinheiro na pandemia e negar a pandemia era verbalizar, foi de graça, não custou nada. Então, o mais difícil ele fez, não economizou na pandemia. Se ele não tivesse negado e tivesse liderado a nação, teria gasto a metade do que gastou [porque mais pessoas teriam aderido a protocolos de segurança, como o isolamento social]. Faltou a liderança que a gente está vendo na Europa. Faltou um líder para nos guiar".
Bolsonaro passou a ser um chefe de governo tipo Pôncio Pilatos, lavando as mãos e deixando as decisões a cargo de governadores e prefeitos, após decisão do STF negar a ele o direito de somente ele decidir quem poderia abrir e fechar para quarentena. Mas não fez só isso, passou a negar o efeito das decisões que eram tomadas, foi substituindo os ministros da Saúde e a dar o mau exemplo, misturando-se, sem máscara, com seus apoiadores.
Essa postura continuou com o problema das vacinas, que o Ministério da Saúde foi cozinhando em banho-maria até a Inglaterra começar a vacinação e o João Doria marcar o início aqui no Estado para o dia 25 de janeiro. Aí também seria demais, o Doria na frente dele. Foi uma sucessão de reuniões e notícias desencontradas, dessas que deixam os empresários e investidores sem saber como será o dia de amanhã e o povo angustiado.
Enquanto as decisões estavam dentro do que os estados e municípios vinham fazendo, com verbas próprias e de repasses emergenciais, a situação se mantinha relativamente calma, mas agora com o início da 2ª onda, jogar a carga da vacinação sobre eles causou alarme e passaram a pressionar o governo, inclusive alertando o presidente sobre o seu futuro, como este aviso do governador do Espírito Santo, Renato Casagrande: "Eu espero que o presidente não fique preso a seu erro, avalie, comande e coordene todo o processo de vacinação. O ideal é que a imunização comece já a partir de janeiro. Caso contrário, ele vai acabar antecipando politicamente o fim do seu mandato. Não estou falando de impeachment, mas de o presidente ficar fragilizado e sem força política até dezembro de 2022".
O autor é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru.