Cultura

'AmarElo - É Tudo Pra Ontem' vai além de um simples registro

Guilherme Sobota
| Tempo de leitura: 3 min

Quando Emicida lançou o disco AmarElo, há pouco mais de um ano, ele não poderia imaginar no que o mundo viraria em 2020: mas o afeto oferecido por um dos melhores projetos da música brasileira no ano passado cai como uma luva no ano em que artistas não puderam subir ao palcos. Mas, ainda antes da pandemia forçar o isolamento social, Emicida subiu no palco do Teatro Municipal de São Paulo para duas sessões de lançamento do AmarElo, no dia 27 de novembro de 2019. Esse show é agora a espinha dorsal do filme "AmarElo - É Tudo Pra Ontem", disponível na Netflix e a estreia de Fred Ouro Preto na direção de um longa.

O filme conta a história da gravação do disco - com momentos marcantes, como uma homenagem a Wilson das Neves em que Emicida compõe uma canção sobre uma base que o mestre da bateria havia lhe enviado antes de morrer, o contato com Fernanda Montenegro, Zeca Pagodinho e Marcos Valle, o encontro com a nova geração da música brasileira, nomes como Jé Santiago, Pabllo Vittar e Majur. O filme também é a história do show. 

Mas "AmarElo - É Tudo Pra Ontem" vai além ao trazer, com ilustrações, canções e uma narração do próprio cantor e compositor, uma história do Brasil e da música brasileira, interconectando o samba, o modernismo e o movimento negro numa reflexão iluminadora não apenas sobre a formação da identidade de um artista (e de um grupo que o circunda), mas também sobre o que se entende por Brasil nos últimos 100 anos. Nesse sentido, o filme esfumaça barreiras comerciais e se torna muito mais do que um documentário musical da Netflix.

"Nós, do lado de cá, orbitamos esse tema (dos movimentos sociais, negros e culturais do Brasil) de perspectivas diferentes", conta Emicida. "Tem quem observa toda a história com sensibilidade maior para a participação feminina, outros irmãos gostam de procurar a pluralidade dos posicionamentos políticos. Temos um grupo de estudos para entender o Brasil."

Ele conta que, para fazer justiça a toda pesquisa dedicada ao projeto (que tem Toni C como roteirista e Felipe Choco como pesquisador), seria necessário uma série de TV. E não faltaria material também: boa parte das imagens do filme reúne gravações e fotos de um Emicida muito jovem, começando a trabalhar, vendendo mixtapes a R$ 2 pelo centro de São Paulo. Aqui, entra Bruno Pompeo, seu amigo dessa época, que captou diversas dessas imagens, incluindo uma cena muito marcante encaixada no final do filme, e contar mais é spoiler.

"A imagem no final foi captada por um amigo nosso, o Bruno Pompeo, o cara que comprou a primeira copiadora da Laboratório Fantasma (a gravadora e empresa de Emicida e Fióti)", lembra Emicida. "Ele passou no cartão dele, me levou até Santo André para buscar. O único projeto que ele não acompanhou conosco foi o AmarElo, porque ele estava com outras responsabilidades. Há uns dois meses, me lembrei dessa imagem, e liguei para ele. Ele separou as fitas e mandou." Pompeo morreu após uma parada cardíaca fulminante há cerca de 20 dias, aos 42 anos.

A pós-produção ocorreu praticamente toda de maneira remota. Mas e depois de álbum, documentário, séries de podcasts, vídeos no YouTube, conteúdo escrito, o "AmarElo" está dado por encerrado? "Ainda tem coisa", garante Emicida. "Este ano, foi o que menos escrevi música na vida, mas viajando aqui, estou pensando em escrever um livro. Me aguarde que voltarei."

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