Natal. No tríplex da família, a menina, de riso fácil, gargalha numerosos brinquedos. Dos presentes, uma Barbie ganha, por completo, a atenção da menina. Mais uma para coleção de saltos, saias e silhuetas. A partir de agora, a boneca a acompanhará pelos andares do apartamento. Uma vez mais, o pedido da menina rica foi atendido pelos pais calmos, resignados.
Bocas exigentes sorviam champanhe Krug e Don Perignon, alargadas por risos prolongados. Alguns, entregues à inquietude do Tempo, tiquetaqueavam suas conquistas acompanhados de um Château Petrus e de um Latife Rothsfield. Sobre a mesa de linho branco, banqueteavam um pernil de cordeiro que, ao lado do pato com laranjas, assumia o protagonismo do apetite comportado.
Aos mais recatados, filhos de cereais e granola, uma sopa de linhaça com chia completava o cardápio familiar das satisfações. Uma canção macia ocupava as escadas da casa. O público preenchia-se em plateia.
A tia velha rica, sob o peso da opressão, debochava, com seus convivas, o que lhes aturdiam os poros com os perfumes baratos dos seus empregados. Gargalhadas. Gengivas autoritárias, convictas de que a Casa Grande tem dono e fronteira. De que a pobreza nasceu para ser morrão de óleo queimado bojudo esquecido no canto.
Jovens feicibuqueavam gestos acumulados. Mizuno e Asics amarrados à sorte incerta, com argumentos 'tipo assim' descalços à renovação.
Imponente árvore natalina pis-ca, pis-ca, pis-ca atenção. Na festa de cidadãos, um Papai Noel de pele dança com sua barriga a quem ousa talhar alegria, essa brisa ligeira. Manjedoura? Deus Menino? Papai Noel existe! Ele que emprestou o vermelho da maçã para ressignificar dezembros, tornando-os suportáveis às fissuras do ano. Ele garante estoque de sede saciado a bocas famintas de Coca-Cola. Ele, tinha de ser o bom velhinho, convoca autoestimas dormidas a cupons de shoppings.
Passado o Natal, papeis de presente, jogados à lixeira, buscavam crianças que exaurissem o que ainda havia de festa em suas cores. No chão mijado, um papai Noel de plástico sorri ternuras sonegadas. Tragédia ou alegoria, o desassossego se repete todo ano. Cada mulher que engravida carrega em si um Natal, que lhe vai talhando o porte, arredondando-lhe o ventre.
No barraco, a mãe, com mãos livres de encantos, abençoa o sono da filha. No sonho descalço, a menina sonha ser bailarina. É Natal. Ao lado da cama, a mãe agacha um achado no aterro. Sapatilhas cheirando a abandono simétrico.
Que pode essa mãe, na rotação universal da vida, senão rodar e também sonhar. A madureza da fé, prenda enigmática, é bem isto: amar o vaso sem flor crendo na água implícita.
Nessa adoração expectante, cuja razão desidrata, desfalece e ressuscita em prece: "Aos filhos e filhas Jesus, Senhor, livrai-os da cruz."
O autor é professor, autor de artigos didáticos, ficcionais e antologias da Língua Portuguesa