Tocou-nos viver um Natal único. Disruptivo. A pandemia sacudiu o mundo. Rompeu esquemas, derrubou projetos, ceifou vidas, apagou sonhos. Pobres e ricos, governantes democráticos e ditatoriais, poderosos e desvalidos - todos - foram algemados pela impotência. Imagens de praças, ruas e avenidas fantasmas e de um mundo vestido de vazio reforçaram o pavor. Regiões inteiras do mundo ficaram isoladas. O globalismo recuou e fechou fronteiras. Os mercados afundaram. Museus ficaram vazios. Estádios de futebol perderam brilho, colorido e vibração.
A Terra ficou de joelhos diante do imponderável. Ao mesmo tempo, fomos sacudidos por um choque de realismo. Descobrimos o vazio de tantas vaidades. Constatamos, talvez por uns instantes, a evidência do nosso nada. Nesta época de Natal, quem sabe, forte e misteriosamente, sejamos capazes de entender um tiquinho da mensagem da Gruta de Belém. No dia 24 de dezembro, às 23h30, na Basílica de São Pedro, centro da cristandade, o rigoroso cerimonial do Vaticano deu início à celebração do nascimento de Jesus Cristo. O papa celebrou mais um Natal que, neste ano, trouxe embutido outro recado: a mensagem transformadora da Cruz.
Todos, católicos ou não, sentimos a forte e suave presença do mistério que, numa reiterada ruptura com os materialismos fechados ao espírito, prenuncia o resgate do transcendente e o ocaso da arrogância racionalista. A humanidade, imaginam os defensores de uma cultura agnóstica, seria mais civilizada e feliz num mundo liberto das amarras espirituais. Os fatos, no entanto, não confirmam essa hipótese. Na verdade, a história das utopias da razão, característica do laicismo radical, está manchada de sangue, terror e privação. Frequentemente, como salientava Oscar Wilde com boa dose de ironia, "as melhores intenções produzem as piores obras". Tinha razão. A Revolução Francesa, por exemplo, não gerou apenas um louvável ideário. A utopia de 1789, em nome da "igualdade", da "fraternidade" e da "liberdade", acabou no terror da guilhotina.
A 2ª Guerra Mundial não foi acionada por gatilhos religiosos. O holocausto do povo judeu, fruto direto da insanidade diabólica de Hitler, teve alguns de seus pré-requisitos na filosofia da morte de Deus. Nietzsche, o orgulhoso idealizador do super-homem, está na origem dos campos de concentração e de extermínio. O Arquipélago Gulag do stalinismo não cresceu à sombra de arrebatos místicos. Feitas as contas, com isenção e honestidade intelectual, é preciso reconhecer que o sonho racionalista, despido do hálito da transcendência, projetou poucas luzes e muitas sombras. Afinal, lembrando o personagem de Dostoievski, "se Deus não existe, tudo é permitido". Até mesmo a eliminação da vida.
Até mesmo a supressão da liberdade.
A nostalgia de Deus é um fenômeno sociológico inegável. Ela está florescendo sobre os cacos que sobraram das aventuras relativistas e das tristes tentativas de liberação do transcendente. Mas o pêndulo da História aponta o reencontro do homem com suas raízes genuínas, sua inquieta peregrinação rumo ao Criador.
O domínio da tecnologia e os notáveis avanços da ciência devem ser comemorados. Mas não explicam quase nada. O homem só consegue encontrar o seu eixo na mágica contemplação de um paradoxo: a misteriosa força do Menino desvalido que descansa na manjedoura.
O autor é jornalista
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