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É hora de virar a página


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Em poucos dias 2020 terá terminado, o que para todos nós parecerá o fechamento de um ciclo caótico, doloroso e sem precedentes. Porém, virar a folha do calendário não será suficiente para deixar para trás os efeitos colaterais da pandemia de Covid-19 que ainda continuaremos enfrentando. Para a psicóloga e hipnoterapeuta Karina Marcuci, é hora de pensar sobre o que se quer para 2021 e desde já separar o realizável do desejável, ainda que se esteja frustrado por não ter colocado em prática o que se planejou para 2020.

Equilíbrio e resiliência serão recursos necessários para o ano de 2021. Somos feitos de emoção. Quando nos damos conta disso e melhoramos nossa autopercepção, tudo se transforma para melhor. Quem se dispõe a conhecer suas emoções, a aceitá-las e também ressignificá-las, passa a ter a direção de si mesmo." Em entrevista ao JC, Karina interpreta o atual momento e dá dicas de como reagir aos desafios no ano que começa daqui a pouco. Veja os principais trechos.

JC - O que o ano de 2020 representou para as pessoas sob o ponto de vista da mudança?

Karina Marcuci - Representou um ano repleto de novas urgências e emergências que precisaram ser socorridas com flexibilidade e adaptação em vários segmentos da nossa vida. A crise matou nossas opções de escolha. De uma hora para outra, trabalhar juntos no mesmo escritório não era mais uma opção, abraçar deixou de ser um gesto de carinho para se tornar um desrespeito àqueles que queremos proteger. Saúde em risco, família em risco, sobrevivência em risco. Tudo diferente em pouco tempo. A grande virada de chave durante a crise veio do agir utilizando os nossos recursos internos, emocionais, ou seja, comportamentos e mentalidades que nos ajudaram a olhar para o futuro, para frente e crer que irá passar.

JC - Por que as pessoas passaram a observar melhor o seu estilo de vida, a prestar mais atenção ao ambiente onde vivem?

Karina Marcuci - Grande parte desse reflexo vem do "desacelerar", sair do piloto automático que muitos de nós vínhamos vivendo. O mundo, como um todo, foi obrigado a parar e isso nos mostrou que não podemos ter controle sobre tudo. Diante da pandemia, saber esperar é essencial para manter a saúde mental. Enquanto se espera é possível observar outros contextos. Ninguém sai de uma pandemia como entrou, justamente porque ela nos propõe olhar onde e como estamos investindo nosso maior ativo, o tempo! Em momentos de recolhimento é essencial aprendemos a valorizar o que importa e dar uma chance a outras perspectivas. Se até alguns meses atrás éramos movidos pelo imediatismo, hoje, o que tem de predominar é a paciência, persistência e a positividade.

JC - A pandemia também foi gatilho - e isto pesquisas recentes já comprovam - para muitos divórcios no País e no mundo. Por que a maior convivência conjugal em casa culminou em tantas separações? O que explica esse fenômeno?

Karina Marcuci - Esse período vem sendo, sem dúvida, um potencial estressor, com o aumento do convívio entre os casais e também ambientes por organizar, filhos a educar, estudar, contas para pagar, medo aflorado, perda de emprego e renda. Conflitos que se sobrepõem e que necessitam de diálogo, ponderação e empatia entre as partes para que se encontre equilíbrio na resolução. Recursos que, cada vez menos, vínhamos exercitando dentro de nossas famílias. A pandemia apenas aflorou o vazio e a desconexão que já existia em muitos lares, infelizmente.

JC -  Em 2020 as pessoas conviveram muito com o medo. Medo de morrer, de perder alguém querido, medo de perder o emprego, medo por não saber o que vai acontecer amanhã. Você acredita que neste período lidamos mal com o medo? Como enfrentá-lo melhor daqui por diante?

Karina Marcuci - A pandemia trouxe de fato mudanças abruptas e inesperadas. E é até certo ponto natural e esperado que em um primeiro momento tenhamos uma tendência a diminuir a percepção de nossos recursos (o que eu faço, como lido com tudo isso, será que consigo?). Também até certo ponto é natural se sentir vulnerável e até frágil, pois de fato não temos controle sobre as incertezas quanto ao futuro. E esse quadro gera maior instabilidade e também ansiedade e medo, condições que se não acolhidas podem se tornar gatilhos para outras questões emocionais. Lidamos mal com o medo? Acredito que cada um de nós fez o melhor que pode com os recursos que tinha. Reagimos de forma diferente diante do medo: algumas pessoas negam os fatos, enquanto outras colocam uma carga dramática ainda maior. Têm aqueles que tentam acalmar os ânimos de todos e têm aqueles que não conseguem encontrar uma saída e paralisam. Quando uma situação de crise chega, lembre-se: está todo mundo estressado, mesmo que não seja o mesmo estresse que o seu. Porém, é hora de aprender com os erros e traçar caminhos para o próximo ano.

JC - Dois mil e vinte deixou marcas psicológicas na maioria das pessoas. Como resolver essas sequelas? Como deixar 2020 para trás?

Karina Marcuci - O ideal é abrir espaço para buscar o autoconhecimento, conhecer quem você é. Suas forças e também pontos a desenvolver. Esse contexto pode lhe fortalecer e também ajudar a enxergar possibilidades onde antes não havia. É inegável que 2020, fora um ano marcante em desafios e urgências, mas talvez você possa tirar dele o que de melhor aprendeu. O que escolhe levar com você? Organize seus recursos, a vida segue, mesmo que de um ou mais jeitos diferentes.

JC - O que devemos aprender com o que vivemos neste ano? Uma pandemia sem precedentes para a sociedade atual e uma convulsão mundial sob todos os aspectos do cotidiano.

Karina Marcuci - Sim, sem dúvidas as bases estão estremecidas, as nações procuram respostas e buscam se refazer, como cada um de nós também. Inclusive, muitos podem estar desmotivados por ter planejado muita coisa para 2020 e não ter conseguido colocar em prática. Mas, agora é hora de reavaliar, pensar sobre o que queremos para 2021. O que falta para que eu conquiste, organize isso de forma clara, por meio de um plano de ação para cada área da sua vida. Separar o realizável do desejável pode trazer clareza e liberar a ação necessária para a conquista.

JC - Em 1 de janeiro de 2021 ainda estaremos enfrentando a pandemia. Dois mil e vinte termina, mas a doença não. Qual o seu conselho para encarar o ano, ainda cheio de incertezas, com mais equilíbrio e menos tensão?

Karina Marcuci - De fato, terminamos o ano ainda buscando recursos, porém para não se frustrar novamente diante das possíveis incertezas e também entraves, é importante abrir espaço para o autocuidado, como por exemplo, reservar tempo de qualidade para cuidar da saúde física e mental. Alimentando bons hábitos que incluem respeito a si mesmo e ao seu ritmo interno. Traçar metas claras e um passo a passo para alcançá-las pautado em possíveis ajustes, se necessário. Manter os cuidados necessários em relação à doença sem subestimar ou superestimar sua ação na vida de cada um de nós. Equilíbrio e resiliência são recursos necessários para o ano de 2021.

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