Já conhece o álbum "McCartney III"? Não? Então, não perca mais tempo. Paul McCartney preparou "McCartney III" sozinho, assim como havia feito com os álbuns "McCartney", de 1970, e "McCartney II", de 1980. Em cada ano desses, ele se distanciou de algo (em 1970, dos Beatles; em 1980, dos Wings; e em 2020, de todo o mundo, como todos tiveram que fazer).
O disco é ótimo, inspirado e traz todos os Pauls: o do violão, o do piano, o das canções de ninar e dos rocks de despertar. "Seize The Day" é um rock and roll desses vigorosos, mas dóceis, a porção de equilíbrio à aspereza de Lennon que Paul sacou logo, sofisticou e levou para a vida. Seu peso não precisou de revolta, algo que ele nunca teve, e seu rock and roll, por mais alto que sua voz chegou em "Helter Skelter", não precisou da raiva de "Seize the Day", que nada tem a ver com "Helter Skelter", segue um pensamento de composição que Paul passou a usar quando se viu com mais recursos de estúdio, a partir do final dos anos de 1990. Melódico e de segunda parte - desculpe, não tem outra palavra - deliciosa.
"Pretty Boys" é o Paul das cordas de aço. O que se senta com um violão e resolve uma ideia em poucos acordes, cantarolando a primeira melodia que vem sem lapidá-la tanto desde que, em algum momento, ela leve a um crescente hipnótico tão poderoso que faria seu fã acreditar que a terra é plana.
"Lavatory Lil" tem um peso maior, mais anos 1970, e traz um solo de guitarra de dedos duros para uma canção que fala de uma Lil, a personificação de uma garota que Paul não gosta e que, conforme disse em uma entrevista, jamais vai revelar quem é. Aliás, Paul toca tudo no disco e aqui pode estar seu calcanhar de Aquiles. Nenhuma execução instrumental é excepcional. Mas era só o que faltava, Paul ser um músico virtuoso.
De todos os Paul instrumentistas, e o mundo pareceu ruir quando ele fez aquele álbum em 1980 dizendo que havia tocado todos os instrumentos (pela complexidade, o de 1970 parece ter sido mais fácil), o Paul baixista não investe mais nas linhas que ele tanto criou para os Beatles. Seu baixo ficou mais reto, mais linear, menos barroco. E isso não é de hoje. Mas ele segue com uma harmonia de toques surpresa em todas elas, "Deep Down", "Slidin", "Winter Bird"... "Winter Comes", "Find My Way", "Deep Deep Feeling" e "Long Tailed Bird".
É bom ouvir bem e muitas vezes a pequena "The Kiss Of Venus". É de sua pequenez que saiu tudo o que Paul fez pela vida, seguindo a estrutura das canções de ninar. Sua ideia inicial é sempre assim, como se ele fizesse sempre uma música para um filho dormir. Depois que o fio da melodia surge, ele o puxa e a desenvolve até levá-la à condição de grande canção ou deixá-la pequena mesmo. Sempre dá certo. Umas viram rock, outras seguem sendo canções de ninar.
E tem ainda "Woman and Wives", que lembra o grave da voz e o drama da alma de Johnny Cash. Triste, bela e solitária, mais ou menos assim. "Muitas escolhas a fazer / Muitas correntes para desenredar / Cada caminho que tomamos / Torna a viagem mais difícil / O riso se transformou em tristeza / Não me deixe triste / Perseguindo o amanhã."