Pão francês, rosbife, queijo derretido, tomate e picles. A receita original do Bauru, criado pelo então estudante de Direito Casimiro Pinto Neto, em São Paulo, na década de 30, caiu no gosto da população local graças ao já falecido José Francisco Júnior, apelidado de Zé do Skinão, que a trouxe à cidade quando fundou a lanchonete, em agosto de 1972. Por isso, embora haja alguns estabelecimentos bauruenses certificados para reproduzir a fórmula, o filho do Zé do Skinão, o comerciante Julio Cesar Sanches Francisco, de 65 anos, conhecido como Joia, se considera o "guardião" da receita. Hoje, ele ajuda o filho caçula Bruno Paredes Francisco, de 33, a tocar o trailer Bauru na Praça, situado na Praça da Paz.
Com uma memória invejável, Joia lembra que o seu pai distribuía amostras grátis do sanduíche à clientela e, aos poucos, o Bauru ganhou tanta aceitação que até existe a intenção de transformá-lo em patrimônio histórico da cidade - o lanche já é considerado patrimônio imaterial do Estado.
Simpático, alto astral e bom de papo, o comerciante colaborou para a fundação do Parquinho Futebol Clube, na "Estância Balneária do Parque Vista Alegre", em Bauru, como ele próprio denomina o bairro onde nasceu e cresceu. Joia também exerceu o cargo de diretor do Esporte Clube Noroeste entre os anos de 2006 e 2012.
O "guardião" da receita do Bauru é casado com a diretora de escola aposentada Celeida Paredes Francisco, de 65, com quem teve os filhos Bruno e Camila, além do neto Bento, de 2 anos. A criança, inclusive, já se recusa a deixar o trailer sempre que visita o avô. "O gosto por este tipo de negócio está no nosso sangue", complementa.
A seguir, o comerciante, que também se aposentou como técnico da CPFL Paulista, revive diversas passagens da sua trajetória, marcada pela venda de mais de 1 milhão de lanches nos últimos 50 anos. "Eu só pretendo parar quando não tiver mais saúde", acrescenta. Confira:
Jornal da Cidade - Como foi a infância do senhor? O seu apelido surgiu nesta época?
Julio Cesar Sanches Francisco, o Joia - Eu brincava muito e aprontava também. Quando tinha entre 12 e 13 anos, jogava bola em um campo da Escola Estadual Joaquim Rodrigues Madureira, no Vista Alegre, com amigos como José Álvaro, Gerson, Faniquito, Azulão, Paulo Sales e Oswaldo Dal Col. A partir daí, nasceu o Parquinho Futebol Clube. Quanto ao apelido, como era muito bonito enquanto criança, a minha mãe, Mariana Sanches Francisco, resolveu me chamar de Joia.
JC - Como o seu pai tinha lanchonete, começou a trabalhar muito cedo?
Joia - Aos 14 anos. Na época, o meu pai conseguiu a concessão do restaurante do Bauru Tênis Clube (BTC). Lá, o pessoal me chamava de Zezinho. Às segundas-feiras, quando folgava, nós jogávamos tênis: eu, Mequinha e Roger Guedes. Em agosto de 1972, meu pai foi para o Skinão e eu, que já havia atingido a maioridade, comecei a atuar como técnico da CPFL, onde fiquei até me aposentar, em 1997, aos 42 anos, porque trabalhava em condições de periculosidade. Porém, ia para a lanchonete todas as noites durante todo este período, afinal, ambos os locais eram muito próximos. A CPFL ficava na Rodrigues Alves com a Agenor Meira e o Skinão, na Rodrigues Alves com a Gustavo Maciel. Só saiu de lá depois que o meu pai faleceu e o meu irmão assumiu o negócio, que passou a funcionar na Praça Portugal até fechar, em 2016, por questões financeiras.
JC - Alguma curiosidade sobre o Skinão?
Joia - Antes de abrir o negócio, o meu pai soube que o Ponto Chic, em São Paulo - até então, o único local que vendia este lanche -, estava prestes a fechar as portas e não quis que o prato se perdesse. Tanto que ele se considerava o 'padrasto' do sanduíche. Além disso, logo no início da lanchonete, ninguém conhecia a receita original do Bauru. O pessoal achava que ia presunto, tomate e queijo. O meu pai reproduzia a fórmula para a clientela degustar e não cobrava qualquer quantia.
JC - Por qual motivo optou por seguir a carreira do seu pai?
Joia - Eu peguei gosto ao ver a paixão dele, assim como aconteceu com o meu filho e, aparentemente, com o meu neto, que dá trabalho para ir embora do trailer sempre que me visita por lá (risos).
JC - Como surgiu a ideia de abrir uma lanchonete com o seu filho?
Joia - O meu filho cresceu no Skinão e, em 2015, antes mesmo que a lanchonete fechasse as portas, ele teve a ideia de abrir o trailer. Lá, nós vendemos uma média de 100 lanches por dia - entre eles, o de pernil, o paulista, o americano e os hambúrgueres -, mas o Bauru permanece como o nosso carro-chefe. O sanduíche, inclusive, é o meu preferido.
JC - O senhor se considera o "guardião" da receita original do Bauru?
Joia - Sim. O meu pai era muito amigo do criador do Bauru e resolveu resgatar a sua fórmula, porque ele não queria deixar a tradição morrer e eu também não.
JC - O que faz para manter este status com as próximas gerações da sua família?
Joia - Eu faço tudo com muito carinho. A execução da receita original exige certo esforço, porque o lanche não fica pronto na hora. É preciso assar o lagarto e resfriá-lo para produzir o rosbife, além de deixar o pepino curtindo na conserva. O meu pai costumava dizer que o trabalho pode ser bem ou mal feito e nós escolhemos a primeira opção.
JC - Quando o senhor pretende, de fato, parar de trabalhar?
Joia - Eu só pretendo parar quando não tiver mais saúde e Deus decidir desligar a tomadinha.