Sem poder contar com a visão, o principal recurso dos deficientes visuais para se localizarem e "rastrearem" o ambiente ao redor é o toque. Porém, em tempos de coronavírus, isso faz com que eles estejam mais expostos ao contágio pela doença, considerando que a recomendação dos órgãos de saúde é evitar o contato com superfícies que podem conter gotículas do vírus. Diante disso, essas pessoas acabam encontrando ainda mais limitações e privações em sua rotina.
O professor de informática e deficiente visual Jorge Herrera, de 54 anos, que mora com a esposa, também deficiente visual, conta que uma alternativa para realizar atividades básicas do dia a dia, como ir ao banco e ao mercado, foi fazer tudo em uma "única viagem" e recorrer a corridas por aplicativo. "Como não podemos deixar de tocar corrimãos e paredes quando saímos, acumulamos os compromissos para resolvermos tudo em um só dia, de uma vez", relata.
Por outro lado, o casal não abriu mão de ir na feira livre semanalmente, considerando que são produtos perecíveis e podem ser armazenados apenas por poucos dias.
ROTINA MAIS CANSATIVA
Após tantos meses em isolamento, Jorge relata que a falta de momentos de lazer faz com que a rotina em casa seja ainda mais cansativa. "Continuo trabalhando, mas sinto falta das pessoas, conversar com amigos, visitá-los ou recebê-los", pondera.
Além disso, ele é professor de informática no Lar Escola Santa Luzia para Cegos, em Bauru, e afirma que, desde a suspensão das aulas presenciais no local, foi necessário um período de adaptação para que pudesse continuar ensinando. Por ora, os alunos recebem as lições do curso por ligação telefônica.
MUDANÇAS
A pandemia mudou a rotina desta mesma instituição em que Jorge trabalha. A presidente do Lar Escola, Nilce Regina Capasso Canavesi, de 63 anos, afirma que as aulas presenciais continuam suspensas, porque a maioria dos 70 alunos integra o grupo de risco. "São idosos, renais crônicos, diabéticos, cardíacos e, para piorar, também são pobres. Nós, infelizmente, perdemos duas alunas para o coronavírus", lamenta. "Ficamos tristes, porque sentimos muita falta de estar com eles, mas voltar ainda é muito perigoso".
A presidente ainda lembra que foi a primeira vez, desde a fundação do Lar Escola, há 51 anos, que o Dia Nacional do Cego, celebrado em 13 de dezembro do ano passado, não foi comemorado.