Entrevista da semana

'O esporte salvou a minha vida'

Cinthia Milanez
| Tempo de leitura: 5 min

Campeã dos Jogos Regionais (15 vezes); do Paulista (quatro); dos Jogos Abertos do Interior (quatro); brasileira (uma); de Arequipa, no Peru (duas); brasileira máster por São Paulo (uma); e mundial máster pela Seleção Brasileira (uma). O currículo da jogadora de basquete aposentada Cristina Ferreira de Brito Rosado, conhecida como professora Tininha, já mostra por si só a importância do esporte na sua trajetória e todo o esforço da ex-ala/armadora, que teve uma infância humilde. "O esporte salvou a minha vida", alega a entrevistada, que conheceu a modalidade graças a um projeto social.

Natural de São Paulo, mas bauruense de coração, ela completou 50 anos neste sábado (23) e acabou de assumir o cargo de diretora do Departamento de Lazer da Secretaria Municipal de Esportes e Lazer (Semel).

Filha da empregada doméstica aposentada Marisa Brito dos Santos, de 77, Tininha só conheceu o pai, o já falecido Ibraim Rosado, na fase adulta, mas declara não guardar qualquer rancor.

Solteira e sem "filhos humanos" - ela vive com a poodle Mila, de 4 anos -, a ex-atleta tem cinco irmãos mais novos, sendo dois por parte de mãe. Um deles faleceu, no ano retrasado, vítima de um câncer logo após se recuperar do vício nas drogas. "Eu falo sobre este tipo de escolha aos meus alunos e, por isso, acredito que o esporte consiga salvar vidas, como fez com a minha", complementa.

Hoje, Tininha também toca o Projeto Esporte Mais Feliz, que ensina vôlei, basquete e futsal às crianças em condomínios do município. A iniciativa possuía um braço social, mas está extinto há três anos por falta de patrocínio. A ex-atleta pretende retomá-la ainda em 2021. A seguir, ela fala sobre este e outros objetivos de vida, além de fazer uma retrospectiva da sua trajetória. Confira:

Jornal da Cidade - Como foi a sua infância?

Cristina Ferreira de Brito Rosado - Eu tive uma infância difícil. Morei em favela e cheguei a passar fome. Para você ter ideia, a minha mãe saía para trabalhar, nos deixando com pão duro e Ki-Suco. Antes, até os 10 anos, morei com pais de criação: Edelzuíta e o seu genro, Edson Raiça.

JC - Teve contato com o esporte nesta época?

Tininha - Eu conheci o esporte através do projeto social Centro Olímpico, em São Paulo. Dos 13 aos 14 anos, joguei vôlei. Aos 15, em um campeonato escolar, me apaixonei pelo basquete.

JC - Em qual momento se profissionalizou?

Tininha - Em 1986, com 15 anos, passei em um teste em Sorocaba e minha família se mudou para lá comigo. Quando completei a maioridade, fui para uma equipe de Guarulhos, momento em que o pessoal de casa voltou para São Paulo. Em 1991, aos 20, me profissionalizei em Araçatuba.

JC - De onde surgiu o seu apelido?

Tininha - Jogava em Araçatuba em uma época em que havia três Cristinas. Uma nós chamávamos pelo sobrenome, a outra pelo nome e eu virei a Cristininha, por ser a menor delas, com 1,70 metro de altura. Depois, o apelido mudou para Tininha.

JC - Antes disso, trabalhava com o quê?

Tininha - Eu já fiz faxina em escritório, além de ter atuado como auxiliar de cozinha e empregada doméstica em casa de família.

JC - Quando chegou a Bauru?

Tininha - Depois de Araçatuba, eu fui para Franca e, em 1994, cheguei a Bauru, onde joguei pelo Bauru Tênis Clube (BTC) por três anos. Na época, a minha família resolveu se mudar para a cidade e não mais saiu. Em seguida, atuei em Avaré; Arequipa, no Peru; São Manuel; Recife; Rio de Janeiro; Marília; e Ourinhos.

JC - O que fez depois que se aposentou?

Tininha - Depois que eu me aposentei do basquete, em 2005, me formei em Educação Física. Morei em Sorocaba e Piracicaba, onde trabalhei como técnica em iniciação esportiva. Há dez anos, decidi voltar para Bauru, já que a minha família escolheu viver na cidade. Hoje, toco o braço particular do Projeto Esporte Mais Feliz e fui nomeada diretora do Departamento de Lazer da Semel. O convite partiu do secretário Flávio Oliveira e da prefeita Suéllen Rosim. No ano passado, o então diretor de Divisão Gustavo Mello Rassito fez a vistoria em 54 academias ao ar livre e mais de 30 playgrounds da cidade. Agora, nós pretendemos dar início à sua manutenção.

JC - O que significa o esporte para você?

Tininha - Pela infância que eu tive, o esporte surgiu para me afastar das drogas e da prostituição. Salvou a minha vida. Hoje, esta deveria ser a área com mais investimentos do que saúde e educação, porque ela repercute em ambas.

JC - Isso a motivou a colocar em prática o braço social do seu projeto?

Tininha - Com certeza. Em 2015, eu dei início ao Esporte Mais Feliz, um projeto que visa ensinar vôlei, basquete e futsal às crianças. O braço social estava focado nos moradores do Santa Cândida e Vila Independência. Há três anos, perdi o patrocínio, mas pretendo retomá-lo ainda em 2021.

JC - Chegou a salvar alguém pelo esporte?

Tininha - Eu acredito que sim. Em 2011, antes de vir para Bauru, tocava um projeto social em Rio das Pedras. Lá, ouvi relatos de crianças que sofreram abuso sexual dos próprios pais. Outras cresciam em meio às drogas. Um dos alunos era terrível, mas melhorou na escola e na relação com os colegas. A disciplina do esporte muda as pessoas.

JC - Você herdou o dom para o esporte de alguém da sua família?

Tininha - Do meu pai, que engravidou a minha mãe e uma moça menor de idade, com quem ele escolheu se casar. Só o conheci quando completei 39 anos. Na época, descobri que tinha outros três irmãos mais novos. Um deles, Jorge Rosado, foi jogador juvenil do Palmeiras e outro, Luciano Rosado, atuou como atleta profissional de futebol. Está no nosso sangue.

Comentários

Comentários