Articulistas

Que gente é essa?

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

Como você e todo mundo, andei pensando que o mundo nunca mais será o mesmo depois que a pandemia passar. Do nada, o vírus chinês chegou e publicou manchetes terríveis. Num, primeiro momento, não as considerei muito diferentes de outras igualmente terríveis. Todas chegam, mas logo vão embora para que outras possam se anunciar. Desde que me conheço, as coisas são assim, manchetes assustam, mas o prazo de validade nem tanto.

A cara do mundo sempre foi feia por trombetear, de tempos em tempos, notícias de os cabelos arrepiar. Impossível esquecer a chegada da Aids, Brumadinho, a boate Kiss, o Ninho do Urubu... Choramos e sofremos. Depois, tudo passa, o sol volta a brilhar e os botecos, a vender cachaça e ovos coloridos boiando em água vencida. O caro amigo Chico nos avisou: quando a coisa fica preta, virão sábados e domingos de muito samba, choro e rock´n´roll. Mas desta vez, a pandemia monstruosa matou e continua matando gente demais. Difícil afinar o tamborim.

Por isso, pensei com os meus botões que tanta dor assim fará profunda revolução. Os homens nunca mais serão os mesmos e a vida outra será. Finalmente, aprenderemos a lição da nossa insignificância e nos convenceremos de que só a empatia e o amor podem nos salvar.

Besta sou sempre. O que vejo, no noticiário, desmente tudo o que imaginei. Pasmem, minha gente! Estão furando a fila da vacina! Olha só o caso do secretário de saúde de Pires do Rio (GO), Assis Silva Filho. O cara fez uma "live" para pedir desculpas ao país por ter furado a fila e vacinado a esposa. Eis as duas justificativas do cara de pau. A primeira: errou sim, mas como "todos grandes vultos da Bíblia também erraram". Estranhei, não me consta que nenhum vulto bíblico tenha furado a fila da Covid 19. Segunda: "protegi a vida da mulher mais importante da minha vida", leia-se da vida dele. Em raquítica tradução, isso significa que a vida da mulher dele é mais importante que todas as outras vidas! Gente, o que é isso! Em Manaus estão escondendo oxigênio dos asfixiados para melhor preço especular! Dá para acreditar que o estado do Amazonas comprou respiradores numa loja de vinhos? Coisa estranha! Nem tanto. Em Santa Catarina, foram comprados respiradores de uma empresa que nunca fabricou respirador!

Enquanto toda essa desgraça acontecia, dois cachorros grandes da nossa política rosnavam e se atacavam na disputa do primeiro braço vacinado! Enquanto os caixões descem, o som do bate-estaca faz tremer baladas clandestinas. Claro, aglomeração, todo mundo sem máscara, muito beijo e pegação.

Idiota fui em acreditar num novo mundo inteirinho azul e de vastas campinas verdes. Nada mudou. Estamos, como sempre, atolados no brejo - ós e a vaca - sendo que esta última nada tem a ver com a sujeira toda. O ator Juca de Oliveira disse coisa de estarrecer: "O ser humano foi uma experiência que não deu certo!"

Melhor não generalizar. Reconheçamos que ainda há muita gente boa, pessoas fraternas e solidárias e a pandemia as tem mostrado fartamente. Como não nos lembrarmos dos trabalhadores da saúde, dos devotados homens da ciência? Como nos esquecermos de todas as pessoas humildes que estão lutando por minorar o sofrimento do próximo? Assim é o ser humano, eterno habitante dos extremos. Nunca duvidemos do que ele é capaz de fazer.

Na seara do bem, mas na do mal também.

O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais

Comentários

Comentários