O carioca Marcus Montenegro, 51 anos, começou a carreira como ator aos 19, mas, cinco anos depois, passou para o outro lado da cena e, junto com Nilson Raman, começou a produzir peças de teatro. Há três anos à frente da Montenegro Talents, que tem em seu cast 320 atores, 25 autores e seis diretores, ele divide no livro Ser Artista - Guia Para uma Carreira Sólida No Mundo da Atuação, escrito com Arnaldo Bloch, dicas de condução de carreira artística. Fala sobre talento, vocação e ego. Tudo misturado às suas memórias de mais de 32 anos de carreira.
O livro ganhará uma adaptação para os palcos, assinada por ele e a dramaturga Regiana Antonini com estreia prevista para o segundo semestre. O ator Caco Ciocler, com quem trabalha há 25 anos, será o protagonista.
Montenegro também tem outra bandeira: a que cobra bons papéis para atores com mais de 50 anos em produções na TV, cinema e streaming. "Com o passar do tempo, os papéis para veteranos ficaram cada vez menores e mais raros. Recentemente, uma atriz de 42 anos fez o papel de mãe de um ator de 28 anos. Por que não colocaram uma mulher de 50 e poucos anos?", questiona.
Recentemente, você criou a campanha "Eu Quero Veteranos na TV". Hoje eles estão perdendo espaço nas novelas?
Marcus Montenegro - Quando você analisa o elenco das novelas do passado, constata que mais da metade era de atores de meia-idade para cima. Elas tinham bons personagens, com arcos dramáticos, inseridos na trama dentro do núcleo principal. Com o passar do tempo, os papéis para veteranos ficaram cada vez menores e mais raros. Recentemente, uma atriz de 42 anos fez o papel de mãe de um ator de 28 anos. Por que não colocaram uma mulher de 50 e poucos anos? Hoje, uma atriz de 50 anos, que já protagonizou uma novela com 20, 30 anos, tem cada vez menos possibilidades de trabalho. Toda a indústria criativa - novela, cinema, séries, streaming - precisa olhar para os veteranos. E, quando digo veterano, é de 45-50 anos para cima. A partir dessa idade, os papéis já ficam mais difíceis. Nos Estados Unidos, Reino Unido e Espanha, os veteranos fazem muito sucesso em séries. O Brasil precisa seguir esse caminho.
E por que isso acontece?
Marcus Montenegro - São dois fatores: a audiência e as redes sociais. Os diretores de televisão querem levar para a TV essa força que os jovens atores têm na Internet. Porém, a meu ver, falta bom senso. O encontro entre gerações precisa existir. É a troca de bastão, é quando se aprende.
A campanha tem relação com as recentes dispensas de atores veteranos pela Globo?
Marcus Montenegro - Não. Deixo muito claro que isso não tem nada a ver com o contrato vitalício. Entendo que a economia em crise gera redução de custos. Isso não invalida que a empresa olhe para esses atores e os contrate por obra. Minha luta é para que o mercado volte a criar bons personagens para esses atores.
Você trabalha com atores como Ana Lúcia Torre, Suely Franco, Nathalia Timberg. Elas sempre são chamadas.
Marcus Montenegro - A Suely é um exemplo de como os veteranos são bem recebidos pelo público. Ela e Ary Fontoura tiveram grande aceitação dentro de A Dona do Pedaço (2019). Ela foi a atriz que mais fez merchandising na novela, com mais de 20 ações.
No seu livro, você fala e dá dicas sobre o self tape (um vídeo de apresentação para agentes e produtores de elenco). Os atores veteranos também precisam se render a ele?
Marcus Montenegro - Sim, não para a TV aberta, mas para o streaming. Muitos produtores de elenco do streaming são de fora e não conhecem muito bem o potencial dos atores brasileiros. É uma moda que chegou, um padrão americano, e os diretores querem ter opções na hora de escolher. Acho que sempre funciona bem, é válido.
As produções de novela já voltaram, com muitas restrições, mas as peças ainda estão em ritmo mais lento. Qual é a previsão?
Marcus Montenegro - A retomada deve ocorrer no segundo semestre. A previsão é que, a partir de maio, a vacinação ganhe um ritmo maior.
Seu livro vai virar uma peça que terá Caco Ciocler como protagonista.
Marcus Montenegro - Caco é um dos meus clientes mais antigos. Trabalhamos juntos há quase 25 anos. É um dos atores que mais admiro, não só pelo talento, mas também pelo caráter, postura e posicionamento na profissão. É intenso, maduro. Ele é tudo o que eu gostaria de ter em um ator para fazer esse espetáculo.