"Naquela mesa está faltando ele..." - Sérgio Bittencourt
Vocês eram muito pequenos quando deixei Bauru no final de 2007. Devo ter desaparecido dos seus registros de memória. É normal, o tempo se encarrega de apagar algumas lembranças. Mas me recordo bem de vocês, de sua mãe Gisela desde quando trazia você Bruno na barriga, de Laura ainda nas bonecas e muito de seu pai, Toninho, meu inesquecível parceiro de aulas, de trabalho, mas também daqueles mágicos momentos de convivência em nossos churrascos quando a picanha e a cerveja (o pai de vocês só tomava Skol, e de garrafa) eram apenas pretextos para celebrarmos a vida.
Estamos ainda perguntando por quê? Por que o Toninho? Aqui a notícia chegou como uma punhalada dolorida e mortal. Não foi fácil, nem está sendo. Para vocês, então?! Mas meus queridos, desde que soube dessa desventura, aqui tão longe de vocês fiquei, a princípio, sem saber que atitude tomar. Incrédulo o que fiz foi ligar para um, para outro, na vã esperança que tudo não tivesse passado de um mal entendido. Afinal, vivemos nos tempo das "fake news", podia muito bem ser uma mentira. Não era. Havíamos perdido Toninho para a Covid-19.
Então, o que me resta nesses tempos de luto é deixar público o registro de que para nós que o conhecemos, para os alunos que tiveram o privilégio de tê-lo como professor , para enfim, aqueles que de uma forma ou de outra desfrutaram de sua companhia e amizade, dizer que o mundo ficou mais triste. Perdeu um pouco da graça porque perdeu Toninho.
Bruno e Laura, o que me vem à lembrança nesses momentos era a chegada de Toninho. Como assim? Isso mesmo, Seu pai sabia chegar. Onde quer que fosse, chegava sempre sorrindo. Este um traço importante de sua alma generosa. Era assim que entrava na sala dos professores, na sala da aula, era como recebia os amigos e era recebido e é assim que quero me lembrar da fisionomia dessa criatura iluminada. Toninho sempre sorrindo!
Sei que não é o momento para lembrarmos de coisas tristes, mas é preciso que vocês conheçam como era generosa a índole de seu pai. Vou contar. No Natal de 2003, uma tragédia se abateu sobre minha família. Meu filho Cauê, 21 anos, cursando engenharia, numa manhã azul, no dia de Natal, o mar aqui da Paraíba o roubou de mim. Nunca mais comemorei essa data. Não consigo.
Mas naqueles dias era preciso retomar a vida. Férias interrompidas, voltei a Bauru. Fui até a escola onde lecionávamos, eu e Toninho. A primeira pessoa que encontrei, coincidência ou não, foi o pai de vocês. Deu-me um terno e demorado abraço e disse não poder avaliar a dor que eu estava sentindo. Eu vinha resistindo, tentando ser forte, mas naquele instante desabei. Para minha surpresa, vi Toninho com os olhos marejados e aquele sorriso do qual falamos linhas atrás desaparecera por alguns minutos. Não me recordo de tudo o que conversamos, mas eu saí dali com a alma mais leve e o coração mais esperançoso.
Assim que as aulas começaram ele foi sala por sala explicando o que me acontecera e pedindo que os alunos me recebessem com carinho e atenção. Assim aconteceu. Por isso não senti desconforto algum ao retornar ao trabalho, mas me vi acolhido e pude atravessar aqueles primeiros meses sem as turbulências com que o luto nos castiga. Não há como pagar.
O que hoje posso fazer, Bruno e Laura, é um pedido. Não deixem Toninho escapar de dentro de vocês. Quando a dor for arrefecendo um pouco, os problemas que uma perda desta acarreta forem sendo resolvidos, será preciso retomar a vida. É quando vocês deverão abrir aquele baú com todas as lições e exemplos que Toninho deixou para vocês. Sejam generosos, corretos, aplicados, Tenham o trabalho como uma virtude e o executem com alegria, aquela mesma com que seu pai ministrava suas aulas. Sempre olhem para o legado que ele deixou. Quantos alunos ele ajudou a formar, e quantas vidas ele influenciou para o bem. Sempre combateu o bom combate nesses pouco mais de cinqüenta anos de vida. Não esteve por aqui a passeio. Soube viver a vida com dignidade e alegria e é, certamente, o que sempre desejou para vocês.
Por fim, permito-me arriscar qual seria a mensagem que Toninho deixaria para os filhos. Creio que iria buscar algo lá em uma composição de Gonzaguinha e lhes diria:
_ Meus filhos, bola pra frente e pensem no que diz essa canção: "E a vida/ e a vida, o que é? /Diga lá meu irmão...Ah meu Deus! Eu sei, eu sei! Que a vida devia ser/ Bem melhor e será/Mas isso não impede/Que eu repita/É bonita, é bonita e é bonita".
Transmitam à mãe de vocês, Gisela (Tó vai estar sempre com ela), o abraço fraterno, meu, de Ana e Gabriela. E fiquem com Deus e o sorriso de Toninho.