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Dante e Umberto Eco: dois gênios autenticamente italianos

Sérgio Mauro
| Tempo de leitura: 3 min

Neste ano comemoramos os 700 anos da morte de Dante Alighieri, o maior poeta italiano e um dos maiores poetas europeus de todos os tempos; neste mês, mais precisamente no dia 19, lembramos os cinco anos da morte de Umberto Eco, escritor, semiólogo e, sobretudo, gênio.

Mas o que é ou quem é o gênio? De acordo com o dicionário etimológico italiano Zanichelli, a palavra gênio indicava na mitologia greco-romana a divindade que tutelava a vida de todas as pessoas. Sempre de acordo com o mesmo dicionário, a palavra gênio, no significado atual de talento criador nas mais altas manifestações artísticas ou científicas, só pode ser encontrada a partir de 1685, mais de um século depois da morte de Leonardo da Vinci, ícone dos gênios. Na biografia de Leonardo, escrita por Vasari, em Vite de' più eccelenti pittori, encontramos apenas "uomo d'ingegno", para designar o talento incomum de grandes artistas da época.

O grande poeta norte-americano T.S.Eliot acreditava que o ser humano não consegue suportar realidade demais. O gênio, que também vive a mesma condição humana como os demais, talvez a suporte menos ainda, tendo mais necessidade do que os comuns mortais de se expressar talentosamente, procurando superar-se e superar os limites da nossa condição, eternizando-se e eternizando-nos nas artes ou nas mais refinadas descobertas científicas.

Uma coisa é certa: o gênio não é necessariamente condicionado pela época em que viveu. No século XIV, Dante foi muito além do que qualquer um poderia ter ido nas suas mesmas condições, destacando-se tanto na poesia como na realização de obras que iniciaram, por exemplo, o estudo sério da política e da linguística. Umberto Eco, intelectual do nosso tempo, não se deixou engolir por modismos e por fórmulas, tão comuns na literatura hodierna que, como todas as coisas, têm o seu valor medido pelo vil metal que conseguem amealhar.

Entre os dois, o gênio do século XIV, poeta genial que na Divina Comédia imaginou a personagem que, viva, viaja pelos três reinos dos mortos e consegue representar a superação da frágil condição humana, tendo, evidentemente, as sabedorias humana e divina como guias, e o grande erudito dos séculos XX e início do XXI, semiólogo, escritor de enorme sucesso (sendo, por isso, objeto de inveja), autor de irônicas e profundas crônicas, atento observador e crítico das mídias sociais que viciam e "escravizam" os humanos , há muita coisa em comum.

Basicamente, tanto Dante como Eco encarnaram muito bem o gênio à italiana: nunca hesitaram em apontar as feridas nacionais que, guardadas as devidas proporções, não mudaram significativamente desde a morte do "sommo" poeta em 1321, exatamente 700 anos atrás. Dante foi exímio poeta, mas também grande erudito e pensador; Eco não foi poeta (embora tenha escrito curiosíssimas paródias de alguns versos do Inferno, de Dante e compêndios de filosofia versificados na juventude), mas sobretudo romancista erudito, semiólogo e pensador.

Juntando ambas as comemorações, os 700 anos da morte do divino poeta e os recentíssimos 5 anos do desaparecimento de Eco, encontraremos uma perfeita síntese dos dramas, das grandezas e das misérias de um fascinante país e de uma das maiores culturas ocidentais. Não seria exagero afirmar que, após sete séculos, Dante encontrou um verdadeiro sucessor. Evidentemente, não nos referimos à sucessão acadêmica na trajetória da literatura italiana, que depois do poeta florentino teve Petrarca, Boccaccio, Ariosto e Leopardi, só para citar alguns dos maiores gênios peninsulares.

Enfim, Umberto Eco herdou de Dante uma característica bem italiana, comum a todos os gênios que no "bel paese" nasceram e viveram: a busca incessante do "capolavoro", da obra-prima, do máximo esforço humano para atingir a perfeição.

O autor é professor doutor na Unesp de Araraquara.

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