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O velho que nada repetia

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

Só o sol lhe era companheiro em todas as manhãs. A filha o colocava numa poltrona, pai, você precisa de vitamina D. Na mesinha, o jornal, assim você fica sabendo o que está acontecendo no mundo. Depois, dava-lhe um beijo na testa e ia trabalhar. Ali, ele ficava até que alguém se lembrasse de recolhê-lo. Gostava mesmo quando o neto arrastava a cadeira e lhe perguntava coisas do passado. Que alegria a companhia do neto, a curiosidade dele, momentos de longa e prazerosa conversa. Pena não contar com tal sorte mais frequentemente.

Todos os dias, o mesmo ritual: o velho, o sol, a poltrona e o jornal. Ele fazia que lia, não magoaria a filha por nada, mas nenhum interesse tinha por um mundo que não era mais dele e que o expulsara de tudo e de todos. O mundo dele morrera com a morte da companheira, com a de muitos amigos e com a perda de contato de tantos outros, possivelmente ainda vivos. Os mais jovens estavam sempre apressados, não lhe davam atenção, viviam com a cara no celular. Na cadeira sob o sol, resgatava o que a lembrança lhe permitia. Fora diretor de importante empresa, ganhara dinheiro, viajara, era presença especial nos eventos sociais, fotografado e comentado nos jornais. Depois, a vida foi lhe tirando tudo. Ficara só.

Agora, nada mais era do que um velho com lugar marcado na mesa de refeições, na sala, no jardim, mas percebia que já não tinha o mesmo lugar de antes dentro das pessoas. Nas festas, nos almoços de domingo, ele vestia a melhor roupa, escolhida pela filha. Depois, recebia dela uma caipirinha com muito gelo, tomasse devagar, não haveria segunda. Quanto mais bebiam, mais o vozerio aumentava, todos falavam e riam ao mesmo tempo. Ele até se animava a dizer alguma coisa, mas logo percebia o desinteresse em escutá-lo. Ninguém lhe pedia opinião. A culpa era dele, admitia, demorava para concluir a frase e a memória desgraçada lhe impunha brancos aflitivos. Com a mão feito concha rodeando o ouvido, mal entendia as conversas que vinham aos pedaços. Maldito aparelho auditivo, jamais se acostumaria a ele.

Numa tarde, ele se assustou com o canto do cuco no velho relógio de parede. Depois comentou: Filho, você sabia que esse relógio é alemão? Eu ganhei do meu pai. Conhecendo a velha história, o filho não levou a conversa à frente. A situação ficou assim: a cada hora vencida, o cuco cantava e o velho repetia: Sabia que esse relógio é alemão?

Impaciente, o filho emendou: Tudo bem, pai, o senhor já falou isso, hoje, três vezes! O velho assustou-se com a repreensão do filho e prometeu que nada mais falaria sobre o relógio. O cuco, ignorando tudo, continuava a cumprir o seu dever de relógio e o velho, a emendar a mesma história. Profundamente irritado, o filho jogou o jornal no chão e saiu resmungando da sala. O neto, percebendo a cena, apressou-se em sentar-se ao lado do velho. Vô, o senhor sabe onde foi comprado esse relógio? A explicação foi longa e cheia de detalhes. No outro dia, quando o cuco e o avô se repetiram, o neto quis saber se ainda havia peças para um possível conserto.

Com o tempo, o velho passou a repetir outras frases. O pai, que vinha observando a paciência do filho, copiou-lhe o gesto de carinho. Finalmente, compreendera que o seu velho pai nada repetia. Tudo o que ele dizia era pela primeira vez.

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