No bairro onde trabalha como cabeleireira em Anápolis (GO), Kenia Silva, 42 anos, começou a ver mais e mais pessoas chegando ao salão com queda de cabelo. Mas ela passou a notar que seu próprio cabelo começou a cair. E também o do seu filho, Pablo. Os dois, assim como alguns de seus clientes, tiveram Covid no ano passado. Na época da infecção, em julho, foram os sintomas já conhecidos: falta de ar, tosse, dor de cabeça, fraqueza. Meses depois é que veio a queda de cabelo. Além disso, tem também até hoje, meses depois de curada, olfato e paladar "trocados".
Seu filho, Pablo Henrique de Souza, 18, se assustou com os sintomas que continuam aparecendo. À época da infecção, no fim de junho, ele teve coriza, dores, cansaço e febre. "O cansaço durou um bom tempo, mas passou. Agora, de um, dois meses para cá, comecei a perceber queda de cabelo. Não tem nada a ver com calvície, é outra coisa, você percebe a diferença."
Pouco mais de um ano após as primeiras infecções detectadas do Sars-CoV-2, nome oficial deste coronavírus, na China, pesquisadores do mundo inteiro se debruçam para entender melhor os efeitos da Covid-19 a longo prazo e possíveis sequelas da doença. Uma dessas pesquisas acontece justamente em Wuhan, cidade chinesa onde aconteceu o primeiro surto da doença.
Artigo publicado em janeiro na revista científica Lancet por pesquisadores chineses analisou os sintomas de 1.733 pacientes que se trataram no hospital Jin Yin-tan em Wuhan entre 7 de janeiro e 29 de maio de 2020. Seis meses após a doença, a maior parte dos infectados apresentou fadiga e fraqueza muscular (63% deles) e dificuldade para dormir (26%).
Já 22% relataram queda de cabelo e 11% relataram alterações no olfato. Os pacientes também relataram palpitações, dores no joelho, perda de apetite, alterações no paladar, tontura, diarreia e vômitos, dor no peito, dificuldade de engolir, feridas na pele, dores no peito e dores de cabeça, tudo isso seis meses após terem sido infectados. E 76% deles tiveram pelo menos algum desses sintomas.
De acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças do governo americano, os sintomas persistentes mais comuns são fadiga, falta de ar, tosse e dor no peito. Outros estudos sugerem problemas mais sérios. Artigo publicado em novembro na revista Diabetes, Obesity and Metabolism analisa casos de pacientes com Covid-19 que adquiram diabetes. De oito estudos analisados, que somam 3.711 pacientes, 14,4% foram diagnosticados com diabetes.
Um desafio dos cientistas é diferenciar quais sintomas são provocados pelo vírus, quais ocorrem por inflamações provocadas pela Covid e quais são consequência do tratamento e medicamentos, explica Ediléia Bagatin, da Sociedade Brasileira de Dermatologia. Outra manifestação vista em consultórios têm sido vermelhidão e erupções na pele, diz ela, nas extremidades do corpo.