Tribuna do Leitor

Receita para desvalorizar um artista bauruense

Paulo Eduardo Tonon - Produtor audiovisual
| Tempo de leitura: 2 min

Após abertura de um "chamado público", com prazo ínfimo para que se leia todo o edital, organize uma extensa documentação e desenvolva um novo projeto cultural, contrate artista ou grupo local por um valor irrisório. Estipule, de modo autoritário, as datas e horários em que ele deve se apresentar para a gravação de sua proposta artística, sem conceder qualquer possibilidade de mudança.

Não assine, em hipótese alguma, nenhum contrato com eles, para plantar no inconsciente coletivo da categoria que eles não possuem nenhum direito nesta "transação". Envolva grandes empresas na gravação das apresentações, com valores muito maiores aos que foram disponibilizados para os artistas, sem realizar nenhum procedimento licitatório.

Divulgue erroneamente que a condição para que eles recebam o "cachê" é a abertura de uma "inscrição" nos órgãos públicos competentes. Não informe, propositadamente, que esta medida ao longo do ano vai gerar em impostos um valor muito maior do que será recebido pela "contratação" do seu projeto artístico. Demore meses, depois das gravações, para efetuar os pagamentos e, sem avisar antecipadamente, já desconte na fonte os valores referentes aos "impostos obrigatórios".

Espere um semestre para disponibilizar o produto final na internet e proíba que eles divulguem estes trabalhos antes deste prazo. Neste intervalo, utilize "comissionados" para espalhar boatos sobre a conduta particular dos artistas mais engajados na cultura local. Adicione a isto uma pitada de sadismo, em decreto que proíba a categoria de exercer outras apresentações de forma presencial durante a pandemia, enquanto outros setores seguem apenas com "regulação de fachada".

Por fim, extinga todos os demais programas culturais da cidade financiados pelo poder público municipal e torça para que os artistas se mudem de cidade ou migrem para outros segmentos "profissionais" ainda mais precários. Este texto é obra de ficção e qualquer semelhança com nossa realidade é mera coincidência...

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