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O que salva as vidas é a 'assistência precoce', não o 'tratamento precoce'

FolhaPress
| Tempo de leitura: 5 min

São Paulo - Fernando Gatti, 44, olha para 2020 e só vê pânico, choro e muito desgaste. Na linha de frente contra a Covid-19, o infectologista do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, foi o responsável por diagnosticar e tratar o primeiro brasileiro infectado pelo coronavírus.

Depois desse paciente, que no dia 25 de fevereiro deu entrada no hospital com sintomas característicos de Covid-19 após viagem para a Itália, Gatti não descansou mais, teve Burnout (estresse que leva à exaustão física), não viu o único filho, de três anos, crescer no último ano.

Essa é a realidade da maioria dos profissionais da saúde que batalham para conter o avanço da doença que já ceifou mais de 252 mil vidas no Brasil.

CONTRA FAKES

O infectologista diz que o coronavírus sempre estará entre nós com suas variantes e que, para contê-lo, será preciso antes minar as fake news que estimulam, por exemplo, o uso do chamado kit Covid, com medicamentos sem eficácia para a doença, como cloroquina e ivermectina.

Para Gatti, o que salva não é o "tratamento precoce", mas, sim, a assistência precoce. "No momento da suspeita diagnóstica, o paciente precisa procurar o quanto antes assistência médica de referência ou especialista relacionado à infecção do Sars-Cov-2, que basicamente acomete o pulmão. A partir daí, o médico estabelece junto com o paciente a melhor forma de acompanhamento."

Já vacinado contra a Covid-19, o médico faz um exercício de futurologia sobre o Brasil e diz ter esperança de que a vacina, apesar dos problemas de gestão na imunização, fará com que a vida como um dia conhecemos volte - nem que seja aos poucos.

Como foi diagnosticar o primeiro caso de Covid-19 no Brasil?

Fernando Gatti - No dia 25 de fevereiro [de 2020], o paciente [um homem de 61 anos] deu entrada no hospital. Ele tinha acabado de chegar da Itália e estava com sintomas respiratórios. A gente decidiu por fazer o exame e, naquela noite mesmo, o resultado deu positivo. No dia seguinte, a amostra foi encaminhada para o Instituto Adolfo Lutz para confirmação. Com a contraprova em 26 de fevereiro foi oficializado como o primeiro paciente com a doença no Brasil.

Como ele recebeu o diagnóstico?

FG - A reação inicial dele foi de espanto, mas ele achava que poderia acontecer porque na cidade italiana onde ele passou havia casos. E até nos ajudou ao pedir ele mesmo o teste para Covid-19.

Se ele não foi internado, como funcionou o atendimento?

FG - Eu falava com ele três vezes ao dia por telefone para explicar o que deveria ser feito. E ele estava muito abalado porque via as reportagens na TV e as pessoas diziam que era para ele estar internado. As orientações de isolamento foram passadas. Ele ficou muito chateado.

Como ele está hoje após um ano do teste positivo para a Covid-19?

FG - Ele está bem e sem sequelas. Ele teve um acometimento de via aérea e depois evoluiu para uma pneumonia bacteriana, o que é uma complicação que ocorre em ao menos 30% dos pacientes que tiveram a infecção por Covid-19. Daí, por causa disso, ele precisou se internar, mas reagiu bem e teve alta rápida. Toda a sua família foi isolada.

A sua carga de trabalho aumentou na pandemia?

FG - A pandemia elevou a minha jornada para 80 horas nos sete dias da semana. Eu estava conseguindo reduzir a carga para 70 horas, mas, por causa dessa segunda onda de casos, o ritmo de trabalho voltou a aumentar.

E qual foi o resultado dessa jornada exaustiva de trabalho?

FG - Em março [de 2020] eu tive Burnout e fiquei de licença por dez dias. Passei por um psiquiatra, tomei antidepressivo e só não fiz terapia por falta de tempo. Eu chorei em vários momentos porque a quantidade de trabalho era tanta que eu tinha dúvida sobre se seria capaz de dar conta. Foi quando eu passei a dizer não para pacientes, amigos e conhecidos que vinham pedir ajuda. Simplesmente porque eu estava muito esgotado. Foi bem difícil e ainda é.

Você perdeu algum paciente para a Covid-19?

FG - Infelizmente foram dois óbitos. Fiquei frustrado e pensando no que eu deveria ter feito a mais, se faltou alguma coisa porque uma doença nova dessa com tantas informações inadequadas circulando e tanta insegurança deixa uma dúvida: será que eu fiz tudo o que era possível?

Como vê as aglomerações de pessoas nas praias e em festas clandestinas apesar do repique de casos de Covid-19 pelo País?

FG - Eu vejo os dois lados: primeiro é uma pandemia que está durando muito tempo. As pessoas realmente estão esgotadas das recomendações de não fazer aglomeração. Eu entendo esse lado.

A questão é que é uma doença que a gente tem pouco recurso de tratamento e, além disso, falta hospital para atender. Aglomeração é a pior coisa que a gente pode imaginar numa pandemia de vírus respiratório. O que eu quero dizer é que eu até entendo que as pessoas tenham liberado geral porque não aguentam mais tanto tempo por desespero, mas a gente vai pagar um preço por isso.

Qual tratamento tem funcionado até agora?

FG - O que a gente tem de comprovação é o uso de corticoide para pacientes que desenvolvem uma alteração da saturação de oxigênio. O medicamento controla a inflamação do organismo. Para pacientes que evoluem para uma alteração de alguns exames laboratoriais que sugerem um aumento de trombose, a gente administra uma profilaxia específica. E se há algumas imagens tomográficas em que você encontra sinais de uma infecção secundária bacteriana é possível administrar medicamento antimicrobiano. A recomendação é monitorar a saturação e acompanhar o quadro com exames laboratoriais a cada cinco dias, além de realizar uma tomografia de tórax se houver sintoma respiratório, como tosse e falta de ar. Também é importante medir a porcentagem de acometimento do vírus no pulmão.

Em um exercício de futurologia, como você vê a pandemia de Covid-19 no Brasil nos próximos anos?

FG - Eu acho que a infecção por esse vírus veio para ficar assim como a Influenza. O Sars-Cov-2 vai fazer parte do nosso calendário de vacinação. A gente vai ter que rever todo ano um esquema de vacina por causa das variantes do vírus que sofreram mutação, e a gente vai ter que preparar vacinas diferentes para poder combater isso. Não vai ter a mesma quantidade de pessoas infectadas como agora porque a gente terá outro nível de população exposta e já vacinada.

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