Tribuna do Leitor

Cuidado, saúde, conhecimento e os piores cegos

Professor Doutor Angelo Antonio Abrantes. Departamento de Psicologia. Faculdade de Ciências - Unesp - Bauru
| Tempo de leitura: 5 min

Em saúde um conceito fundamental é o de cuidado. Cuidar no sistema de saúde representa a unidade entre o conhecimento social que existe sobre os fenômenos, que pode ser uma doença, medidas para seu tratamento ou ações de prevenção, e a necessidade das pessoas que precisam que esses saberes sejam aplicados para resolver seus padecimentos e dores ou ainda para evitar que aconteçam.

As pessoas que adoecem e as que estão em risco de adoecer solicitam cuidado oriundo de conhecimentos produzidos e apropriados por aqueles que trabalham com saúde. A população necessita de cuidados profissionais. Os desafios são imensos e intensos, visto que são várias as dimensões que compõem um fenômeno ameaçador da saúde pública, como é o caso da Covid 19. Em uma pandemia, é a população em seu conjunto que necessita de cuidado: cuidado direto com a pessoa adoecida, cuidado para evitar que a doença continue infectando, cuidado de educar a população para que possa cuidar-se etc.

De mãos dadas com o conceito de cuidado está o de conhecimento. Os gregos denominavam as formas de conhecimento por meio de três palavras: Doxa, Sophia e episteme. Doxa se refere ao conhecimento opinativo. É a forma menos elaborada, mais estreita e direta de saber. Trata-se do palpite. As pessoas têm opinião sobre as coisas do mundo baseadas na sua vivência, no ouvir dizer, na representação desorganizada. Esse saber é unilateral e é refém dos erros e enganos.

Outra forma de conhecimento é o da sabedoria. Sophia é o saber formado a partir de uma longa experiência. Não é à toa que procuramos pessoas experientes para nos atender nas mais variadas situações. Queremos ouvir o pedreiro experiente, o mecânico experiente e até mesmo a avó ou avô para nos aconselhar. Também queremos cuidados dos profissionais de saúde mais experientes e sábios. O sábio é alguém que valoriza o conhecimento: busca, observa as regularidades e conquista o saber pela prática. O sabido conhece inclusive os limites do seu saber.

A episteme é a forma de saber mais elaborada: organiza-se pelo método científico. O caminho racional para o processo de produzir conhecimento tem como finalidade conhecer a realidade visando superar as armadilhas que nos dificultam conhecer. A realidade é "fugidia" e necessitamos de método para produzir conhecimentos que consigam manejar esses desafios. O saber produzido pela prática científica tem o objetivo de melhor conhecer a realidade e seus fenômenos para justamente lidar com os problemas que a vida nos impõe. Até mesmo a sabedoria popular conhece as armadilhas do processo de representar a realidade: nem tudo que parece é! Nem sempre a observação direta pode ser generalizada como saber realmente válido.

A ciência é conquista humana que visa produzir conhecimentos sabendo que acasos podem ocorrer. Sabendo que podemos nos enganar ao lidar com a realidade e que nossas vontades e desejos podem interferir nos resultados. Portanto é um conhecimento fundado na prática sistemática voltada ao processo de conhecer: testa, experimenta, observa sistematicamente, chega a conclusões. Inclusive chega a entendimentos que contrariam as hipóteses iniciais e desagradam.

Em síntese, os conhecimentos possuem níveis de objetividade distintos. A prática menos consequente se fundamenta na forma menos eficiente de conhecimento que é o da opinião. A prática em saúde fundada no palpite representa descuido e risco. A política em saúde que descuida da ciência não se compromete com a vida. O descuido tem seu fundamento na opinião e no conhecimento parcial, disseminado pela "ditadura" dos palpiteiros que passou a ser comum nas redes sociais. O conhecimento social mais elaborado encontra dificuldades e obstáculos para chegar à população que dele necessita.

O descuido mata! A população precisa de vacina para preservar a vida, abraçar as pessoas, trabalhar, divertir, ou seja, existir sem medo. Já vimos, ouvimos e lemos opiniões compartilhadas de que a Covid 19 é uma gripezinha - confesso que gostaria que fosse; que o remédio destinado a outra doença pode tratá-la - confesso que gostaria que a cloroquina tratasse ou prevenisse a Covid 19; que existe um "combo" de tratamento preventivo que não é a vacina - confesso que gostaria que houvesse.

Infelizmente o que eu gostaria que fosse não interfere na objetividade da doença. Entre a opinião e a realidade temos 254.942 mortes no Brasil - quando estiver lendo essa reflexão outros mais terão falecido. São pessoas mortas. Morre a sabedoria popular com os idosos. Morre a ciência com o elevado número de profissionais de saúde mortos. Morrem trabalhadores que não puderam se distanciar. Morrem professores. Morrem pessoas que amamos. Morrem desempregados. Morrem cientistas. Morre o povo brasileiro.

O descuido como política de saúde mata! O ataque à ciência e ao conhecimento produzido globalmente sobre a Covid 19 mata. A incompreensão sobre as vacinas mata. Divulgar que o distanciamento social é sinônimo de frouxidão mata. Induzir a erros por interesses econômicos e eleitoreiros mata. Fazer o uso da opinião em oposição à ciência com a intenção de criar obstáculos à razão mata. Enganar mata!

Algumas pessoas são vitimas da manipulação de opiniões, mas algumas instituições fazem parecer que a morte foi calculada. Fazem parecer que as distorções criadas para dificultar a compreensão sobre o fenômeno Covid 19 foram intencionais. Ora, se há intenção existe dolo! Pessoas bem intencionadas também disseminam opiniões que distorcem e dificultam a compreensão da população: não há intenção, mas culpa. Será que as opiniões infundadas que compartilhou no último ano não contribuíram para produzir mortes? O covid 19 é uma gripezinha? A vacina produzida com parceria chinesa não serve para salvar vidas? A sabedoria popular afirma que o inferno está cheio de boas intenções!

O atraso sistemático na imunização da população mata. As consequências são também econômicas. O cuidado com a população nessa pandemia é dependente do saber científico. Alguns não querem ver a realidade e a dureza da situação. Talvez ainda não seja possível reconhecer que foram enganados e ludibriados por supostos salvadores que disparam suas opiniões contra a saúde da população e contra a democracia. O pior cego é aquele que não quer ver! O pior cego é o que não vê que estamos imersos na mais profunda e escancarada desumanidade! O pior cego é aquele que divulga equívocos e compactua com a morte!

* Viva os profissionais de saúde que se arriscam e se engajam em aplicar e socializar os conhecimentos em defesa da vida.


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