Uma pele lisa, sem manchas, sem espinhas, sem acne, sem textura - esse é o ideal de beleza que a jovem influenciadora e empresária Kéren Paiva quer destruir. Ela lida com um quadro insistente de acne desde a adolescência e sabe como esse estereótipo de pele perfeita alcançou um status de idealização tão forte quanto o da ditadura do corpo perfeito. Hoje, aos 24 anos, a mineira de Contagem é um dos principais nomes ligados ao movimento pele livre no Brasil que prega liberdade para ter uma pele imperfeita, e mostra que toda pele tem textura e pode ter mancha, espinha, acne...
Você convive com a acne desde os 11 anos. Como foi crescer e aceitar sua pele como é?
Kéren Paiva - Quando começou, era pouco e eu convivia com outras meninas que também tinham, então não me preocupava. Mas quando fui ficando mais velha, com 14, 15 anos, foi um período bem difícil. Eu ouvia das pessoas que ter pele com acne está ligado à sujeira. Eu sempre cuidei da minha pele, sempre limpei da melhor forma, mas continuava me sentindo suja. Só na vida adulta, há dois, três anos, que eu comecei a desconstruir tudo isso em mim.
Você escreveu mais de uma vez que se sentia aprisionada.
Kéren Paiva - A gente acaba parando de viver por ter pele acneica. São coisas tão naturais para muita gente, mas muito complicado para quem tem uma pele como a minha. Isso aprisiona. Deixei de sair algumas vezes porque a base tinha acabado e eu não conseguia sair de casa sem maquiagem, sem tapar toda a acne do rosto. E eu ficava sonhando com coisas como "quando eu não tiver mais acne, eu vou à praia sem maquiagem
De que formas tentou lidar com a acne até que realmente fizesse as pazes com ela?
Kéren Paiva - Tentei várias formas de me livrar disso, porque a gente aprende que tem que se livrar. Desde receitas caseiras malucas, como colocar pó de café e até limão na cara, até tratamentos mais fortes, com antibiótico e isotretinoína [roacutan]. Se eu tivesse a cabeça que tenho hoje, não teria me submetido a muitas dessas coisas. Ainda faço tratamento, mas tenho a cabeça muito mais leve, porque não existe mais aquela carga de ter que me livrar da acne a todo custo. Sei que é uma condição minha, que minha acne é muito resistente e não vai sair da minha pele do dia para a noite, mas sei também que isso não é culpa minha.
Qual foi a virada de chave para aceitar sua pele?
Kéren Paiva - Quando eu conheci a Layla Brígido, que é uma influenciadora que fala de body positive, hoje minha amiga. Na época, eu via ela questionar padrões de corpo, falar de autoestima, isso virou a chave para que eu questionasse também padrões de pele. Pensei: "Por que eu sou vista como suja se eu limpo minha pele todos os dias?" e "por que eu me sinto culpada se eu trato minha acne de todas as formas possíveis há anos?".
Quais comentários você escuta por conta da sua pele?
Kéren Paiva - Existem dois tipos de comentários que são muito comuns e precisam parar. Primeiro, os que associam acne à sujeira e falta de cuidado. Segundo, palpites que a pessoa não pediu.
De que formas o movimento pele livre, que você defende, se relaciona com o movimento corpo livre?
Kéren Paiva - O pele livre prega liberdade para ter uma pele imperfeita, e mostra que toda pele tem textura e pode ter mancha, espinha, acne, que nada disso é errado ou anormal. Não precisamos ter uma pele plastificada, como a indústria vende. Tanto o pele livre quanto o corpo livre gritam sobre liberdade.