Às vezes me canso,
e me canso de quase todos:
dos bobos,
dos lobos,
dos lodos
e dos tolos.
Da mesmice,
da burrice
da canalhice e
da caretice.
Dos meia-bocas,
dos porra-loucas,
dos capitalistas e
dos anti-imperialistas.
Até mesmo dos cientistas...
claro: dos negacionistas
e terraplanistas,
esses nem é preciso falar,
só de existirem me fazem
cansar!
Dos em tudo versados,
dos alienados
e também dos letrados,
dos sabidões,
dos vilões,
me cansam aviões
e multidões.
Por vezes tudo me cansa,
a comilança,
a desconfiança,
a desesperança,
o tolo otimismo,
o insistente pessimismo,
o eterno diagnóstico,
o cristão, o agnóstico,
e também o pernóstico!
Dizem que quando cansamos
de tudo isso
chega a hora do sumiço,
de sair de cena e cair no
choro,
porque cansar desse jeito,
independe do sujeito,
na certa é mal agouro!
O bom é que cansa ficar
cansado,
e como os dias entrecortados,
entre sol e sombreados,
a noite e seus convidados,
dormir renova a alma,
pode até trazer calma
e levar o cansaço embora.
Dormir só ou acompanhado,
de sono bom ou pesado,
isso, é claro, também pesa.
Mais do que dormir sem reza,
p'rum bom quadro e que se
preza
é preciso arejar a mente,
senão de nada serve o
travesseiro:
dói pescoço e corpo inteiro,
e o cansaço,
que estava pra ser findado
ressurge redobrado.
Felizes os que cansam,
mas depois descansam.
E porque entra ano,
sai ano,
recordo Guimarães,
Graciliano:
a vida nos cobra coragem!
Sim, viver cansa:
e faz parte da viagem.