Articulistas

Criança gerando criança

Maria América Ferreira
| Tempo de leitura: 2 min

A Rede Pública de Saúde de Bauru apresentou dados, na última semana, que indicam um aumento de quase 30% de gravidez em adolescentes (matéria publicada na edição de 12/03/2021 do Jornal da Cidade). O número passou de 195 para 260 entre 2019/2020. Vez ou outra esse assunto aparece na imprensa de todo País, no entanto, pouco se faz em termos de política pública, para mudar esses números.

Infelizmente, em que pese todo acesso à informação, os números de violência doméstica contra a mulher, crianças e adolescentes, só aumenta. No caso da gravidez não seria diferente, principalmente por ser um assunto que não se discute. São vários grupos, religiosos ou não, que oferecem assistência a mulheres grávidas e pobres. Porém, isso só ocorre depois da constatação da gravidez.

Trata-se de efeito dominó. Em uma 'família' que a mãe tem quatro ou cinco filhos de pais diferentes, não é incomum as filhas seguirem o mesmo caminho na adolescência. Não é raro que mães e filhas engravidem na mesma época. Isso é uma questão de saúde pública. Mas infelizmente, o assunto não é tratado de maneira séria.

Existem estatísticas também, de adolescentes que interrompem os estudos por conta de uma gravidez. Em muitos casos, o pai também adolescente, sai em busca de trabalho para sustentar a mãe e a criança. O resultado, sem dúvida, vai ser uma união fadada ao abandono tanto de um lado como de outro. E mais uma vez quem sofre é a criança. Vai crescer sem estrutura familiar, e é possível que cometa os mesmos erros dos pais.

Por outro lado, vale lembrar que não são só os pobres que enfrentam a dificuldade de uma gravidez na adolescência. Entre as classes média e alta também ocorrem esses casos. A diferença é que, normalmente, as adolescentes recebem o apoio da família que tem condições de cuidar de uma criança. Ou então, optam por interromper a gravidez de uma adolescente. Nem pense que isso não existe. É real, apesar do combate por parte de grupos religiosos ou defensores da vida.

O fato é que, entre tantos assuntos empurrados para debaixo do tapete, esse é mais um. Não adianta ter estatísticas e nada ser feito, para que crianças deixem de ser números, e passem a ser tratadas com o respeito que merecem. Educação e saúde ainda estão longe de ser o ideal. As discussões de gênero são inócuas quando não se protege as crianças. Mulher não pode estar onde ela quiser, como massificam as propagandas. Bem que muitas gostariam.

A autora é jornalista, colabora com Opinião.

Comentários

Comentários