Eu começo a responder dizendo que vivi!
Vivi intensamente cada dia. Às vezes, sem muita vontade, outras com tamanha que parecia que ia invadir a tela do computador. E se você está lendo esse meu texto singelo agora, também viveu. Vibre por isso!
Milhares de pessoas não tiveram essa nossa oportunidade, chegamos a um patamar inconcebível, falando apenas do nosso país, de mais de duas mil pessoas que morreram por dia. Seres humanos para os quais a morte, como Uma Nuvem Negra, tem chegado e de forma sorrateira, tem impedido pessoas de respirar e de inspirar, seja nos hospitais ou em suas casas, pois já não há mais leitos para todos.
O vírus tem ceifado a vidas de muitos e destroçado muitas famílias. A culpa parece estar alcançando até os incrédulos, pela possibilidade da doença batendo à porta. Sim, tem chegado para todos e para todas as idades. Então, pergunto: o que estamos fazendo de nossas vidas?
Exatamente no dia 17 de março de 2020 iniciei o período de isolamento social trabalhando em minha casa... e como trabalhei! Afinal, como gestora pública na vice-diretoria da FC/Unesp de Bauru, pertencendo ao grupo de risco, não tinha outra alternativa. Ou melhor, dar o exemplo foi uma primeira ação. Depois, isolei, chorei, fiquei muito brava com alguns, quantas e quantas reuniões para planejar e, as vezes até como planejar as reuniões! Parece que não saíamos do lugar. Preocupações invadiam meu peito. Como ficariam as aulas?
E minha pesquisa da Fapesp? E se eu fosse contaminada? E a exclusão digital de nossos alunos? E a resistência de nossos (não todos) professores? Realmente, foi muito sofrimento, muito exercício de paciência. Muitos chegaram a pensar que queríamos" enfiar goela abaixo" a EAD para todos os cursos da universidade, sendo que esta nunca foi a intenção, pelo menos não a minha, embora saibamos que diversas estratégias advindas das Tecnologias da Informação e da Comunicação, já utilizadas na educação à distância, certamente já deveriam fazer parte do contexto de um ensino de qualidade em todos os níveis. Só para lembrar: o que fizemos de nossas vidas neste ano que passou?
Reflito e parece que foi ontem, gostaria de compartilhar com você uma certeza que aprendi neste ano. O ontem já foi, não posso mais mudar. A certeza que temos é do hoje, como relembrei em interações com meus familiares, alunos, orientandos, colegas de trabalho. Outro aprendizado importante é que não há dúvida, a Ciência comprova que o nosso hoje interfere por demais em nosso amanhã, sim no meu, no nosso planeta, e no amanhã de nossa família!
Por isso, pergunto mais uma vez: o que estamos fazendo de nossas vidas? O que estamos fazendo hoje?
Para não me alongar, registro aqui algumas vivências dos meus dias de isolamento social. Na Unesp como gestora pública, juntamente com tantos outros Unespianos, escolhemos a vida. Elegemos a Vida, o diálogo e a pluralidade como princípios. Como não podemos parar, mesmo que continuar seja difícil, seguimos adiante. Em meio a Pandemia, elegemos uma nova reitoria, novos colegas diretores e vice-diretores. Fizemos campanhas para doações de celulares, informamos e formamos com base na Ciência.
Eu, particularmente, aqui no meu convívio virtual, levei boa música e poesia para nossas formações. Compartilhamos momentos de dor quando perdemos pessoas próximas, sofremos quando vimos os números subirem avassaladoramente. A ciência alertou que estava ruim, mas podia piorar e piorou, colapsou. O que estamos fazendo de nossas vidas hoje?
É importante lembrar que, o que você fizer em sua vida hoje, poderá ser fatal na vida de alguém amanhã.
Quanta saudade! Chorei, sorri, comemorei aniversários, formaturas, posses e desposses de colegas, teletrabalho, teleconsulta, telecompra, comemorei on-line até o retorno de uma grande amiga que voltou ao Brasil depois de 30 anos. Quantas lives assisti! Quanta criatividade! Quanto ódio disseminado! Quanta mentira. E as Fake News! O que fizemos e o que faremos de nossas vidas? E a tristeza? Ela chegou sim, não posso mentir! Teve dias que parecia que a dor ia saltar para fora. Sim, teve dias que cansei, que descuidei, ainda bem que não peguei! Quanta aprendizagem também!
Os profissionais da saúde, de forma estupenda, estão fazendo a diferença! Algumas pessoas passaram a valorizar mais sua família, vivendo a convivência mais intensa, outras adotaram um animal, estão aprendendo outra língua, como eu, ou cuidando das plantas, cozinhando, entre outras atividades.
Por fim, a Ciência continua firme e forte. A vacina foi desenvolvida. Há 365 dias atrás isso parecia impossível tão rápido. Ela chegou, pena que não para todos, ainda!
E a educação? E a escola? Se mostrou essencial! Para o hoje e para o amanhã, mesmo que não seja o nosso. E os professores, muitos estão se reinventando, aplausos a todos que não deixaram a escola morrer. Lembre-se dos seus filhos e netos. Para quem ainda não a valorizava como deveria! Assim, o que podemos fazer? Quantas perguntas para serem respondidas? Quanta fome de comida e de conhecimento? Quanta evasão? Quanta desumanização? Será que encontraremos uma solução?
Cabe a nós professores de todos os níveis de ensino, refletirmos e repensarmos o que estamos fazendo agora!! Uma vez, que é cientificamente comprovado que impactará várias gerações! O caminho me parece que deve ser os quatro Hs, que trago comigo a tempo: a Humanização, a Honestidade, a Humildade e o Humor (no sentido de alegria).
A Pandemia escancarou problemas de injustiças sociais e de exclusão que já tínhamos antes da Covid 19, quem sabe o caminho não será: construirmos escolas com culturas, práticas e políticas mais inclusivas, para além das quatro paredes, e assim oxalá, num futuro em que por ventura tenha outras pandemias ou outras catástrofes, não tenhamos tanta dor e injustiças como agora.
E você, o que está fazendo da sua vida!?
O ontem já foi! O amanhã não sabemos.
Hoje, por favor, cuide-se e cuide dos seus, por mim, por você, por nós!