Articulistas

'O Brasil espera que cada um cumpra o seu dever'

Helder Fernandes de Aguiar
| Tempo de leitura: 3 min

Bonito, né? Disse o Almirante Barroso na Batalha Naval do Riachuelo, em 11/06/1865. Será que essa frase teria hoje o efeito que teve naquela batalha, decisiva e vitoriosa, na Guerra da Tríplice Aliança, entre 1864 e 1870? Não creio. Há um ano foi instalado no Brasil (no Hemisfério Norte há mais tempo) uma situação emergencial para o combate a um vírus que vinha da China, prometendo que contaminaria muitos e seria letal, para poucos. Uma gripinha, uma doença respiratória comum, para alguns, e previsões devastadoras de outros.

Uma clara e inconsequente campanha política se instalou imediatamente, visando ganhos políticos, inicialmente as eleições minoritárias, para prefeito e vereadores e, claro, para governo, Legislativo e Presidência em 2 anos. Como sempre acontece nesses momentos, a verdade pouco importa e ganhos pessoais e financeiros muito importam. A empatia foi a maior perdedora e tudo se fez em nome de uma ciência que foi falada e usada muitas vezes sem a menor coerência, de maneira sórdida com manipulação de fatos e números sempre atendendo a velados interesses pessoais ou de grupos.

Não interessa se tal medicamento funciona, interessa quem o apoia! Se o presidente apoia tal medicamento, sou contra; se o governador terá ganhos pessoais com a vacina, sou contra, nem sei por que, mas sou contra. Artigos científicos sem qualquer credibilidade foram usados a favor ou contra, e vários medicamentos não usados politicamente, mesmo sem evidência científica, são prescritos sem alardes, como a Colchicina e o Osetalmivir, sem convulsão social e científica. Nunca foi tão verdadeira a frase que de médico e louco todos têm um pouco. Escolas contaminam crianças? A aglomeração na entrada e saída das escolas contaminam? O ambiente dentro da escola, com professores, pessoal da limpeza, secretárias, seguranças contamina? Se me interessa, contamina, se não me interessa, não.

Aí pouco importa o isolamento. Uso máscaras até dentro do carro sozinho, tomo banho de álcool em gel, troco de roupa antes de entrar em casa, mas recebo familiares para jantares, churrasquinho na piscina e para os amigos dos meus filhos adolescentes, por que assim ficam em casa e não se contaminam! É sério isso? O presidente é genocida e negacionista; o governador é ditador; todo dia aparecem ações para comprar vacina, abrir o comércio, deixar escolas abertas e por aí afora. E eu, o que faço?

Fui ao mercado ontem com a minha mulher; fiquei no carro esperando e o que vi é assustador. Famílias inteiras saindo do seu carro e entrando na loja, inúmeros casais de jovens, adultos jovens e idosos e ainda ouvi de uma casal, ambos de cabelos grisalhos, saindo da loja e passando em frente ao meu carro, que não está dando para vir ao mercado porque ninguém respeita o distanciamento. Além da consciência, não deveria ter um controle rígido do mercado? Sim, mas se existisse consciência não haveria necessidade de fiscalização e controle de entrada e não estaríamos nessa situação de caos.

Outro dia estava numa rotisseria e, ao ser chamado a atenção por estar sem máscara, um senhor, muito bem trajado, foi embora praguejando quem o questionou, dizendo que ela estava "pegando no seu pé". Não existe milagre e não existe uma fórmula mágica, isso todos sabem; mas a educação, respeito, empatia e solidariedade se aprende em casa e está no caráter de cada um.

Meu caro Almirante Barroso, hoje seu Brasil perderia a guerra, e não de 7x1, de muito mais...

O autor é médico otorrinolaringologista

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