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O vírus deu uma tijolada na racionalidade humana?

José Denilson Nogueira
| Tempo de leitura: 4 min

O mundo tem vivido uma situação que nossa geração talvez nunca imaginasse que viveria. Além de mudar a rotina da maior parte da população, ainda trouxe insegurança, preocupação, dúvidas, ansiedade, sensação de impotência e muitos outros sentimentos. Tudo tem se voltado para uma tentativa de controle da situação, uma grande mobilização das autoridades, da ciência e, principalmente, dos profissionais da saúde. Mas o que realmente tem sido eficaz?

Vidas poderiam ter sido poupadas? Ou a situação poderia ainda estar pior? Ainda não temos respostas exatas para estas perguntas. Para a economia, a pandemia trouxe (e ainda trará) consequências drásticas, mas ainda imprevisíveis no momento. Também tem ocorrido um acirramento das discussões políticas, principalmente em relação a protocolos, eficácia ou não de determinados medicamentos, medidas restritivas para o funcionamento do comércio etc. Tudo isso devido à falta de exatidão e pacificação por parte da ciência sobre todas essas questões.

Um ano de pandemia e ainda há muitas incertezas, sistemas de saúde entrando em colapso, e muitas outras consequências, visíveis e invisíveis. Muitos dos que não se contaminaram têm buscado ajuda da psiquiatria, outros sofrem calados, e se angustiam por não aceitar toda esta situação ou passam a ter problemas de saúde de ordem psicossomática. A mídia tem trazido informações contraditórias. A ciência tem divulgado apenas estudos preliminares, teses ainda não confirmadas, resultados parciais, ou que apresentam eficácia apenas em alguns indivíduos, por exemplo. Mas o que está ocorrendo?

A ciência não está dando conta do recado? A racionalidade humana não era algo superior e invencível? A ciência e a tecnologia não eram perfeitas? Não estamos aqui criticando a ciência em si, pelo contrário, muitos avanços têm sido possíveis graças a ela. O desenvolvimento das vacinas em tempo recorde é uma prova de que a ciência tem contribuído, e muito, no combate à pandemia. Além do esforço constante em busca de respostas, que deve ser reconhecido.

Ocorre que o comportamento desse vírus é um tanto imprevisível e sem padrões, o que tem dificultado imensamente a tarefa dos cientistas. Pessoas idosas são as mais vulneráveis, porém, muitos de idade elevadíssima vencem a doença e se recuperam. Alguns jovens saudáveis acabam sucumbindo. Uma nova variante do vírus surge e muito pouco se sabe sobre ela, enfim, os estudos não dão conta de explicar tudo o que está ocorrendo.

A virologista Rúbia Anita Santana, coordenadora do Setor de Biologia Molecular do Einstein, em entrevista à BBC News Brasil, afirmou que "O coronavírus fez a gente voltar ao jardim de infância da virologia e reaprender muito do que sabíamos sobre doenças infecciosas. Ele tem características únicas, muito diferentes daquilo que já tínhamos visto". Algo que desafiasse assim a ciência e a racionalidade humana não era sequer imaginado pela nossa cultura atual. Uma cultura que tem assistido um acelerado desenvolvimento tecnológico, ficou um tanto desorientada, e até decepcionada, com algo que fugiu totalmente do seu controle. Nossa tecnologia criou coisas incríveis, mas…

E como tentar explicar isso com o olhar da antropologia? A cultura ocidental racionalizada desde sempre foi etnocêntrica, ou seja, achava-se superior a tudo e a todos. A própria ciência antropológica, nos seus primórdios, era etnocêntrica quando defendia a teoria do evolucionismo cultural, onde os homens "primitivos e selvagens" estariam numa fase inferior de desenvolvimento cultural, e o homem branco europeu civilizado estariam no topo da evolução. Devemos destacar também que esta tese ficou impregnada de forma permanente em nossa cultura.

Quando o ser humano se acha o ser mais mega super evoluído do planeta, e aparece um outro ser, que nem é visto a olho nu, e provoca um estrago desses, causa um desconforto considerável. Isso deveria, no mínimo, provocar alguns momentos de reflexão. Uma reflexão filosófica cairia bem no momento. Com este olhar de crítica à racionalidade e à prepotência do ser humano, proponho uma visita à obra de Friedrich Nietzsche. Creio que ele diria

que o coronavírus deu uma tijolada na racionalidade humana. Em Aurora ele diz: "habituamo-nos a acreditar em dois reinos, o reino dos fins e da vontade e o reino dos acasos; neste último tudo se passa sem sentido, nele tudo vai, fica e cai sem que ninguém pudesse dizer, por quê? para quê? -

Temos medo desse poderoso reino da estupidez cósmica, pois aprendemos a conhecê-lo, o mais das vezes, quando ele cai sobre o outro mundo, o dos fins e propósitos, como um tijolo do telhado e nos atinge mortalmente algum belo fim. Essa crença nos dois reinos é um antiquíssimo romantismo e fábula: nós, anões espertos, com nossa vontade e nossos fins, somos molestados pelos estúpidos, arqui-estúpidos gigantes, os acasos, atropelados por eles, muitas vezes esmagados sob seus pés".

Não proponho o pessimismo, tão presente na obra de Nietzsche, mas sim uma reflexão, se talvez o momento atual não seria uma boa oportunidade para que o ser humano se torne menos prepotente em relação ao seu conhecimento sobre si mesmo e sobre o mundo.

O autor é bacharel em Ciências Sociais, pós-graduado em Antropologia e funcionário público municipal em Lençóis Paulista

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