Rapidez na liberação do corpo. Funeral sem velórios. Caixões lacrados. Número reduzido de pessoas no sepultamento. Assim são os novos enterros em tempos de Covid-19. Do reconhecimento da gravidade da doença para a internação, conversas trocadas pelo WhatsApp antes de falecer.
A pandemia do novo coronavírus impôs novas formas de encarar o luto: a falta de tempo para a despedida. Dentre as perdas diárias ocorridas na experiência humana, associadas ao medo, insegurança, angústia, a vivência da pandemia já se caracteriza um luto antecipador. Nesse distanciamento social de retorno incerto, os aplicativos de mídia social têm assumido contornos de expressiva relevância.
Quais razões motivariam a sociedade vitrinizar seus pesares nas redes sociais? Por que tornar público o privado? A influência das redes digitais no comportamento social é um fato notório e irretocável. O mundo virtual -irremediavelmente - transformou-se em uma extensão da vida cotidiana do mundo real. Nesse processo de apropriação tecnológica, temas como a morte também migraram para o mundo online em busca de ressignificações.
Num momento em que o novo coronavírus ceifa três milhões de vidas no mundo, teclar e compartilhar atuam como suporte emocional para conforto da experiência com sentimentos, adoecimento, hospitalização e morte calafetando fissuras do sofrimento vivenciado. A exposição da subjetividade intenciona dar voz ao desgosto inquietador esperando nos amigos acolhimento cordial ao aceno gritado.
A dor, antes pessoal, ganha braços e ouvidos coletivos. A angústia, antes intransferível, é despachante. O choro, bem antes intramuros, reverbera em ressentidas onomatopeias de afetos emojizados. Por isso, externar as emoções relacionadas à doença. Buscar com as mensagens fraternais necessário refrigério. Expressar na palavra consoladora paz à família consternada, enlutecida.
O luto feicibuquiado não demanda de parênteses explicativos. Está na imagem postada de uma flor preta e murcha deitando gritos de despedida. Reside na foto de quem partiu e agora convida ao abuso de saudades pelas sublimes lembranças. No riso largado de um sábado alegre de companhia.
No abraço, capacidade simpática de gratidão acumulada em admiração. Na companheira tão gasta quanto ele, costurando um amor unânime.
O autor é professor, autor de livros didáticos, ficcionais e antologias da Língua Portuguesa