"E aí, o que te angustia? A nossa mortalidade?" Logo no início da entrevista que dá origem a essa reportagem, Mario Sergio Cortella - professor, escritor e filósofo - lançou a pergunta. Na esteira dos acontecimentos do último ano, fica difícil separar as angústias pessoais das profissionais, tudo virou uma coisa só. A partir de todas as mudanças deste ano, Cortella direciona o olhar reflexivo para o mercado de trabalho, suas relações e comportamentos em seu novo livro, "Quem Sabe Faz a Hora", lançado neste mês pela Editora Planeta. Ao se debruçar em torno do que cerca o mundo do trabalho e a carreira - muitas vezes, misturado com o mundo pessoal -, como a forma de agir, a necessidade de aprender a escutar as dores do outro e a lidar com os conflitos e os confrontos, o filósofo traça, como o próprio intertítulo diz, "as competências certas em tempos incertos".
Como os papéis de gestão e liderança mudaram nesse último ano pandêmico?
Mario Sergio Cortella - Nós não temos um mundo como tínhamos e dificilmente o teremos. Quando terminar o tempo dessa tempestade, não seremos idênticos, não seremos inéditos. Ou seja, mesmo que eu utilize todo um aparato digital, tal como usamos hoje, nós seremos diferentes, mas não inéditos. Não seremos como nunca fomos e não continuaremos da mesma forma. Uma das coisas que marca esse campo é o de quem lida com gestão de pessoas, projetos, negócios, atividades.
Como gerir a equipe?
Cortella - Eu tenho que mudar as métricas. Uma das alteradas é que, entendendo que a circunstância doméstica tem uma série de interveniências, o ordenamento do trabalho precisa ser em um horário ajustado, ainda mais com famílias que têm crianças e que precisam ordenar o uso do mundo digital, as tarefas de casas. Lembrando que quem atua mais no mundo corporativo, e não no chão de fábrica, está em casa. Então, vou trabalhar não pela presencialidade, mas pela eficácia do que realizou. A gestão vai ter que lidar, inclusive, com um componente que antes a gente não tinha tanto à nossa volta a tal ponto que se dizia muito no mundo corporativo: "não traga os seus problemas de casa". Agora, os líderes e gestores não só estão em casa como as pessoas com as quais a gente mantém algum tipo de relação de autoridade também estão em casa. Isso faz com que eu precise ter um outro olhar sobre isso, não que seja menos exigente, mas menos inclemente. A liderança precisa também lidar com questões emocionais. Afinal de contas, nós estamos trabalhando, nadando, atravessando, remando num mundo com uma dificuldade imensa. Temos perdas à nossa volta, não são apenas de vidas, mas perdas também de processos, sonhos, convivências. Um líder precisa ter isso muito claro.
Em uma passagem do livro, você diz que a atitude do profissional, principalmente neste momento, têm mais a ver com a letra da música "Pra não dizer que não falei das flores", de Geraldo Vandré, do que de "Deixa a vida me levar", de Zeca Pagodinho.
Cortella - Uma das coisas mais importantes é não esquecer o conceito clássico, que vem dos gregos, de oportunidade. De quando os romanos no passado falavam para não se perder o momento, para não deixá-lo se esvair. Claro que quando Geraldo Vandré aproveita isso e faz uma canção magnífica, ele está sugerindo algo que qualquer pessoa tem sempre que ter no horizonte, que é a capacidade protagonista, isto é, a noção de ser proativo em vez de ser meramente reativo. Nesse sentido, entender que quando se busca em vez de apenas se aguardar, a possibilidade de se encontrar aquilo que se procura é muito maior do que apenas submeter-se a circunstâncias sob as quais você não tem nenhum tipo de intencionalidade. Por isso, "deixa a vida me levar, vida leva eu" é uma delícia para um momento de lazer, para o sossego.
O que é ter uma atitude empreendedora no mercado de trabalho?
Cortella - Eu gosto muito de relacionar a noção de empreender com a noção de autoria, isto é, ser autor da própria trajetória. Autonomia é quando eu, no âmbito da minha liberdade de ação, sigo o que entendo como o que desejo, como o mais correto. Por isso, sendo eu uma pessoa autônoma, e não soberana, seria tolo supor que no afeto, na carreira, na amizade, eu seja soberano. Eu dependo muito daquilo que não está ligado à minha decisão exclusiva. Não sou eu que decido tudo, mas naquilo que sou eu que decido, eu preciso fazê-lo. Embora eu não tenha uma autonomia absoluta - eu sou dono de mim, mas não de tudo que está à minha volta - há limite. Isso significa que, se eu não mando em tudo o que faço, naquilo que mando tenho que ter consciência, capacidade de flexibilidade em relação à alteração de rota e humildade para construir as ferramentas que eu ainda não disponho. Isso vale para tudo aquilo que te leva a pensar que você não pode qualquer coisa, mas alguma coisa pode.