Economia & Negócios

Memes à venda:alguns valem milhões

Bruno Romani e Giovanna Wolf
| Tempo de leitura: 3 min

Não é todo dia que um artista consegue vender sua obra por valores superiores aos já atribuídos a trabalhos de Frida Kahlo e Salvador Dalí. No começo de março passado, o designer gráfico americano Mike Winkelmann, conhecido como Beeple, conseguiu a proeza ao atingir US$ 69 milhões em uma colagem leiloada pela tradicional casa de leilões Christie's. Tem um detalhe: a obra não existe no mundo real. Ela é um arquivo do tipo JPEG, o mais comum para imagens digitais. Por trás da cifra assombrosa está o NFT, uma tecnologia que promete mudar a percepção de propriedade e comercialização de bens digitais.

É difícil imaginar como um arquivo, que pode ser replicado infinitas vezes, tenha o status de obra de museus. Muitas vezes, o que garante a originalidade desses trabalhos são certificados de autenticidade. O NFT (sigla para "token não fungível") funciona da mesma maneira: é um registro de que uma peça é única e tem dono. Ou seja, quem compra uma arte digital via NFT não está levando um arquivo que pode ser submetido com facilidade aos comandos de copiar e colar - está levando um certificado.

Esses certificados usam a estrutura da tecnologia de blockchain - a mesma da moeda bitcoin -, que oferece um registro seguro, transparente e descentralizado. Quando o sistema anota que uma pessoa é dona de um bem digital, é impossível apagar ou duplicar o registro.

Isso não significa que apenas o dono do NFT possa ter acesso ao arquivo JPEG - a obra do Beeple poderá ser reproduzida em infinitos computadores. Assim como a Monalisa é reproduzida em diferentes formatos, as obras certificadas com NFT podem ganhar cópias. Porém, da mesma forma que o museu do Louvre é dono do certificado da obra mais famosa de Leonardo Da Vinci, apenas uma pessoa é dona do NFT da obra de Beeple.

Em outras palavras, o NFT nada mais é do que um instrumento para colecionar bens digitais - supostamente oferece o mesmo gostinho de exclusividade e ostentação. No mundo das artes vendidas por NFT, há galerias e leilões especializados no segmento, que cobram taxas dos artistas para expor. A venda de obras digitais é parte do que o NFT é capaz de precificar. Qualquer arquivo digital pode ser vendido com a tecnologia, incluindo memes, tuítes e músicas.

O Nyan Cat, um meme de um gatinho colorido, foi vendido por US$ 590 mil em fevereiro - outros memes do autor estão à venda. Jack Dorsey, fundador do Twitter, colocou à venda sua primeira postagem na rede social. A mensagem de 2006, em que Dorsey diz que está configurando seu Twitter, foi vendido por US$ 2,5 milhões em um leilão.

Outros nomes conhecidos por experimentação também já embarcaram: antes de anunciar o fim, a dupla francesa de música eletrônica Daft Punk disponibilizou para celebridades obras digitais em NFT - uma delas já foi vendida por US$ 15 mil pela atriz Lindsay Lohan. Já o artista visual Banksy digitalizou uma de suas obras e a vendeu por US$ 380 mil - a peça original foi queimada.

De fato, não há limites para o que pode ser vendido por NFT. "Hoje estão vendendo qualquer coisa digital. As pessoas estão explorando até onde existe apetite de compra. No fim, pode ser qualquer coisa que alguém queira comprar e ter um certificado", explica Guilherme Nigri, que está produzindo um game onde os bens digitais vendidos na plataforma serão comercializados em NFT.

No Brasil, um dos primeiros artistas a vender NFTs foi o músico André Abujamra, eterno líder da banda Karnak. Ele fez uma parceria com o artista plástico Uno de Oliveira na animação "Coelhék", que foi vendida por US$ 3.700 no começo de março. O resultado animou o músico, que venderá NFTs de músicas que ele não colocará nas plataformas de streaming.

 

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