Eu tinha uma vizinha. Era uma senhora, devia ter uns 75 anos, solteira, sem filhos. Filha única, pais falecidos, ela morava sozinha. Tinha um cão, seu companheiro. Contava que, aos finais de semana, ia para o sítio do noivo, também com avançada idade, cuja família era bastante acolhedora.
Em época de final de ano ela encomendava de outra senhora vizinha, prendada em culinária, doces e petiscos para levar a Jaú, onde ficava a propriedade rural do namorado, local onde passava os momentos festivos. Num prédio com poucas unidades, e pessoas sozinhas habitando cada qual, suas histórias, contadas em minúcias, eram motivo de distração. Pedia sugestão de vestimentas a usar nos eventos para uma, narrava ocorrências com o noivo para outra...
Eu, com a vida atribulada e por respeito, nunca perguntei por que não se casou, diante de tantos anos de agradável relacionamento. Porém, via minha amiga feliz, e isso bastava. O cachorrinho faleceu por velhice. O namorado a presenteou com outro, um poodle branco. Os anos passaram... Um dia, recebi a comunicação de que minha vizinha de frente havia falecido. A empregada, chegando na segunda-feira, tendo chaves de acesso, encontrou-a caída no chão do quarto. O cão, fiel, ao lado. A causa provável do falecimento foi infarto, ocorrido há dias.
A notícia me chocou. Me senti impotente. Inútil, na verdade. Eu, a poucos passos, não pude ajudá-la. Não soube que precisava de ajuda. A família, resumida num primo, veio ao lar para dar destino a seus pertences e as coisas que guarneciam o imóvel, locado. Dias transcorreram. Semanas, também. O namorado não apareceu. Eu e outras vizinhas nos reunimos com a finalidade de encontrar um meio de comunicá-lo. Tinham visto que, na agenda telefônica de nossa amiga falecida, não havia anotação do nome ou contato do mesmo, nem de qualquer parente ou amigo dele.
Na oportunidade, lembraram das narrativas dela sobre o namoro, os encontros, as festas. E eu me lembrei de nunca tê-lo encontrado, nem mesmo avistado momentos em que ele a buscava para passar os finais de semana em Jaú. O noivo que nunca apareceu, não existia. Mais um choque. As encomendas de doces e petiscos para festas de final de ano, os pedidos de sugestões de vestimentas a usar em eventos, as narrativas minuciosas de ocorrências sobre um longo e feliz namoro entre pessoas de idade avançada, tudo fruto da imaginação de uma pessoa solitária.
Muitas vezes lhe dei flores. Colocava os singelos vasos no rodapé da porta de entrada do apartamento. Era uma forma de dizer que era importante. Também a presentei com bilhetes em que grafava frases positivas, reproduzidas de livros que eu lia. Sem perceber, atuei de forma a amenizar a triste realidade de minha amiga, cuja verdadeira história eu não conhecia.
Em época de pandemia, também podemos amenizar a solidão de alguém.